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John Lennon socialista

publicado em 26/11/2007

Em 1971, após a separação dos Beatles e em meio ao clima de radicalização da esquerda, John Lennon e Yoko Ono concederam uma histórica entrevista a Robin Blackburn e Tariq Ali, publicada em Red Mole (Toupeira Vermelha).

A entrevista é memorável por registrar como Lennon elabora em uma mesma narrativa a sua origem de classe, a emancipação dos traumas de uma infância de abandono através da análise, a superação dos anos de droga e busca de culturas místicas, o encontro com Yoko que lhe abriu a perspectiva feminista, a inspiração em Marx e a imaginação socialista e revolucionária.

A seguir, registramos alguns trechos marcantes da entrevista.

“Eles me criticaram por cantar 'Poder para o Povo', dizendo que nenhuma facção pode deter o poder. Bobagem. O povo não é uma facção. Povo significa todas as pessoas. Penso que cada um deveria possuir tudo de forma igualitária e que o povo deveria ser também proprietário das fábricas e ter participação na escolha de quem as dirige e o que deve ser produzido. Estudantes deveriam ter o direito de escolher seus professores.”

“A canção Imagine, que diz, 'Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política...' é virtualmente o Manifesto Comunista... Hoje Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar – uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, mas porque ela é suave é aceita.”

“Eu gosto disso (que os grevistas cantem 'Todos nós vivemos com pão e margarina' no ritmo da canção Yellow Submarine). E gostava quando torcidas de futebol nos estádios cantavam All Together now (Todos juntos agora). Sinto muita alegria quando o movimento na América canta Give peace a chance (Dê uma chance para a paz) porque compus esta canção pensando nisso. A minha expectativa é que ao invés de cantar We shall overcome (Nós conquistaremos), do século XIX, tivéssemos algo mais contemporâneo. Senti uma obrigação de compor uma canção que pudesse ser cantada nos bares ou em manifestações. Por isso gosto de compor atualmente canções para a revolução”.

“Quando comecei, rock and roll em si mesmo era uma revolução para pessoas da minha situação e idade. Precisávamos alguma coisa alta e clara para quebrar toda a insensibilidade e repressão que nos acompanharam desde quando éramos crianças. Tínhamos consciência de que começamos imitando a música dos americanos. Mas pesquisamos e descobrimos que ela era metade branca e ocidental e metade blues e ritmos negros. Muitas das canções vieram da Europa e da África e agora estavam voltando para nós. Algumas das melhores canções de Bob Dylan vieram da Escócia, Irlanda ou Inglaterra. Embora deva dizer que as canções mais interessantes para mim eram as dos negros porque elas eram mais simples. Elas falavam diretamente em mexer o seu traseiro ou o seu pau, o que era realmente uma novidade. E haviam também canções rurais que expressavam o sofrimento que eles viviam. Não podiam se expressar de forma intelectual e tiveram que cantar em poucas palavras o que estava ocorrendo com eles. E tinham os blues das cidades, muitos deles sobre sexo e luta. Muitos eram uma forma de auto-expressão mas apenas nos últimos anos eles se expressaram plenamente com o Black Power, como Edwin Star e seus discos de luta. Antes disso muitos cantores negros estavam ainda envolvidos com a problemática de Deus; com muita freqüência cantavam 'Deus vai nos salvar'. Mas os negros estavam cantando direta e imediatamente sobre seu sofrimento e também sobre sexo. Era o que eu mais gostava.”

“Parece que todas as revoluções terminam com o culto à personalidade – mesmo os chineses parecem precisar de um grande-pai. Penso que isto ocorre em Cuba também, com Che e Fidel... Na tradição do comunismo ocidental, teríamos que criar uma imaginação dos próprios trabalhadores serem para si mesmo a figura do grande-líder.”

“Após a revolução, você tem o desafio de manter as coisas em movimento, selecionando entre diferentes visões. É bastante natural que os revolucionários tenham diferentes soluções, que eles se dividam em diferentes grupos, é a dialética, não é – mas ao mesmo tempo eles precisam estar unidos contra o inimigo, para solidificar uma nova ordem. Não sei qual a resposta; obviamente Mao tem consciência deste problema e mantém as coisas em movimento.”

“E as mulheres também são muito importantes, não podemos ter uma revolução que não envolva e emancipe as mulheres. É sutil como se fala da superioridade masculina. Levou algum tempo para que eu compreendesse que o meu machismo estava cerceando certas áreas para Yoko. Ela é uma socialista radicalmente libertária ('red hot liberationist') e logo me fez notar como eu estava errado, mesmo quando parecia para mim agir naturalmente. Estou sempre interessado em saber como pessoas que se dizem radicais tratam as mulheres.”

“(Para destruir o capitalismo na Inglaterra), penso que o único caminho é tornar os operários conscientes da sua sofrida posição a que estão submetidos, dos sonhos que os cercam. Pensam que estão em um maravilhoso país da liberdade expressão. Compram carros e televisões e acham que não há nada mais na vida. Estão condicionados a deixarem os patrões mandarem, a verem seus filhos massacrados nas escolas. Estão sonhando o sonho de outros, não é um sonho autêntico deles. Devem compreender que os irlandeses e os negros estão sendo reprimidos e que eles serão os próximos. Tão logo eles tomem consciência de tudo isso, podemos começar a fazer algo. Os trabalhadores têm de começar a assumir. Como Marx disse: 'Para cada um segundo sua necessidade'. Penso que isto seria muito adequado aqui. Mas teríamos que infiltrar nas Forças Armadas porque eles estão bem treinados para nos matar a todos. Temos de começar tudo isso a partir de onde nós próprios estamos sendo oprimidos. A idéia não é confortar as pessoas, não fazer elas se sentirem melhor mas conscientes do péssimo estado em que estão, constantemente fazer com que encarem as degradações e humilhações a que estão submetidos para ter o que chamam de um salário capaz de cobrir o custo de vida.”

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