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1980 - 2010 - Trinta anos de uma greve histórica

publicado em 29/04/2010

Em 1979, alguns meses após o encerramento da greve dos metalúrgicos, começava a ser preparada uma das campanhas salariais mais marcantes da história do movimento sindical e brasileiro e que refletiu definitivamente no quadro político vivido pelo país. A campanha dos metalúrgicos vinha se somar a movimentos de donas de casa que lutavam contra a carestia, de estudantes contra a ditadura, de professores, portuários e outras categorias. No início de 1980 nasciam novos partidos  políticos: PDS, PMDB, PDT e,  inclusive o PT (o manifesto de fundação foi lançado em fevereiro).

No dia 16 de março, os metalúrgicos do ABC em assembléia no estádio da Vila Euclides aprovaram o indicativo de greve a partir de 1º de abril.  A decisão foi referendada em assembléia com cerca de 60 mil metalúrgicos no dia 30 de março no mesmo local. Iniciada a greve, passaram-se 17 dias sem negociação com o setor patronal e com o governo, até que Lula e mais 14 líderes dos metalúrgicos fossem presos. A greve durou 41 dias, os sindicalistas foram libertados, alguns enquadrados na Lei de Segurança Nacional, mas seu significado político ultrapassou as fábricas e o território do ABC.

Na página "ABC de luta! Memória dos metalúrgicos do ABC"  do site do Sindicato dos Metalúrgicos o ABC, lideranças como Lula, Djalma Bom, Edilson Ferreira dos Santos, o Zé da Mata, Devanir Ribeiro, entre outros, dão seu depoimento sobre a campanha salarial, o embate com o governo federal, a grande mobilização da categoria e o momento político. 

Segundo Djalma Bom, foram nove meses de preparação para a greve de 1980. Ele conta que nesse período foram realizadas 215 reuniões por fábricas na sede do Sindicato; 300 assembleias preparatórias nas portas das fábricas nas trocas de turnos; foram impressos 450 mil boletins preparatórios das 13 assembleias que aconteceram na Vila Euclides,  antecedendo a greve; foram confeccionados 600 mil suplementos do jornal Tribuna Metalúrgica.

No depoimento dado ao projeto de História Oral do PT e publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo no livro Muitos caminhos, uma estrela: memórias de militantes do PT , Djalma Bom relata: "O Lula sofreu demais na cadeia. Por exemplo, todos os dias nós prestávamos depoimento gravado. Os depoimentos do Lula eram por escrito, duas, três, quatro vezes por dia. Ele descia – nós ficamos lá no porão –, daqui a pouco, meia hora depois, o cara subia com ele. Um dia chamaram o Lula. Falamos: “Vai ser mais um depoimento por escrito”. Daqui a pouco, ele voltou. Eram uns beliches enormes assim, eu estava assim, encostado. E ele encostou a testa no beliche, as lágrimas começaram a escorrer. Eu falei: “Lula, o que é que aconteceu?”. Ele falou assim: “Minha mãe morreu”.

"Foi um enfrentamento duro, a intervenção foi muito forte, mas foi uma greve que, na minha opinião, teve grandes saltos, surgiram novas gerações", avalia Devanir Ribeiro, diretor do sindicato em 1980. Dali, segundo ele, surgiram lideranças como Jair Meneguelli, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, e Luiz Marinho. "Nós fomos afastados, tínhamos que formar uma nova diretoria, aí que veio essa safra nova... Para mim, foi a maior experiência, mesmo como militante antigo. Creio que foi ali que se abriu o novo horizonte para o Novo Sindicalismo. Foi a greve de 1980."

Um dos expoentes da greve de 1980, Jair Meneguelli, lembra que a greve havia iniciado com eixos como a redução da jornada de trabalho e a estabilidade no emprego. Essas duas reivindicações "eram mais significativas do que aumento salarial", enfatiza Meneguelli, que fazia parte da Comissão de Mobilização.

O metalúrgico Edilson Ferreira da Silva, Zé do Mato, também registrou suas memórias da  greve de 1980: "O estádio estava lotado com 120 mil metalúrgicos. O Lula em cima de uma mesa falando para os trabalhadores voltarem no outro dia, me lembro que eu estava sentado na geral e o Lula gritava de cima da mesa “Fala pra vim amanhã pra assembléia, fala pra vim amanhã pra assembléia, e as pessoas que estavam mais próximas repetiam a frase até que o conjunto pudesse ouvi-la. Na outra assembléia o pessoal providenciou um equipamento de som, foi distribuído o jornal Tribuna Metalúrgica para todos que continha 10 ou 12 orientações, se não me falha a memória. O Lula falava: Não aceitem provocação, saia daqui direto pra casa, não fiquem no bar, não fiquem no ponto de ônibus, não acreditem na imprensa só acreditem na informação do Sindicato, cuidado com a matéria paga da imprensa, com a mentira do governo, com a propaganda do patrão, ele orientava pra não entrar na provocação da polícia, pra não brigar, porque o sistema estava todo armado contra nós. Então, durante todo o tempo ele fazia esses avisos. Era emocionante pra todos que participavam desse movimento."
 

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