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Greve que mudou o País faz 30 anos - da Tribuna Metalúrgica

publicado em 29/04/2010

No dia 1º de abril de 1980, cerca de 200 mil metalúrgicos do ABC iniciaram uma das maiores greves gerais da categoria. Os militares que governavam o Brasil responderam com a ocupação policial da Região e a proibição de qualquer manifestação. No dia 1º de maio, mais de 120 mil pessoas desobedeceram as ordens e saíram às ruas. A repressão recuou. Nem todas as reivindicações foram atendidas nos 41 dias de paralisação, mas a resistência dos trabalhadores mudou a história do Brasil.

Os metalúrgicos do ABC iniciaram a Campanha Salarial de 1980 dispostos a prosseguir na luta iniciada em 1978 para recuperar as perdas impostas pela ditadura militar que ocupava o poder no País desde 1964.

O governo pensava o contrário. A farsa do milagre econômico (processo de crescimento da economia pelo grande endividamento externo) que sustentara o regime tinha acabado. A inflação havia chegado aos 120% anuais e consumia rapidamente os salários. Só os juros da dívida externa custavam cerca de R$ 13 bilhões ao ano.

Os militares decidiram que esse dinheiro devia sair do arrocho salarial. Por isso não permitiriam reajustes, já que naquela época a política salarial era ditada pelo governo. Os metalúrgicos não deram atenção e encaminharam uma pauta que, além do aumento real de 15%, tinha entre os principais itens reajuste trimestral, semana de 40 horas, representante sindical na fábrica e garantia de emprego por 12 meses para evitar a rotatividade.

Braços cruzados
O movimento sindical tinha claro que essas reivindicações só seriam alcançadas com uma greve muito bem organizada, que prosseguisse independentemente da repressão policial, intervenção no Sindicato, prisão de dirigentes etc.

Assim, a mobilização para a Campanha intensificou-se. As horas-extras deixaram de ser feitas e a população dos bairros começou a ser envolvida. Entidades e instituições – como a Igreja Católica – também.

No dia 1º de abril a greve foi deflagrada pela quase totalidade dos cerca de 200 mil metalúrgicos da Região.

Boa parte de quem cruzou os braços foi ao Estádio de Vila Euclides – atual 1º de Maio –, em São Bernardo. A adesão ao movimento impressionou a população e os demais metalúrgicos.

Dias depois a paralisação se estendeu a várias outras cidades no Estado.

Encurralados, os pelegos da federação oficial dos metalúrgicos fecharam um acordo de 5% de reposição e nada mais. As bases não aceitaram e prosseguiram com os braços cruzados.

Levada a julgamento, o Tribunal do Trabalho recusou-se a declarar a greve ilegal e concedeu reajuste entre 6% e 7%, mas nada de garantia no emprego ou representação sindical. Os trabalhadores do interior aceitaram a proposta. Os do ABC, não, e o movimento prosseguiu.

Greve continua mesmo com repressão - As empresas estavam proibidas pelo governo de negociar e no 17º dia o Tribunal Regional do Trabalho declarou a greve ilegal e o Ministério do Trabalho decretou intervenção no nosso Sindicato. A greve, no entanto, continuou intacta.

Todas as fábricas estavam paradas.

O Exército interveio militarmente no ABCD e tentou acabar com a greve à força, proibindo reuniões e assembleias. Lula e outros 15 dirigentes sindicais foram presos.

A resistência dos metalúrgicos sustentou-se na mobilização direta dos moradores no ABCD e a Igreja Matriz São Bernardo tornou-se o local das assembleias gerais.

No dia 1º de Maio, quando a greve completou 31 dias, uma gigantesca manifestação reúne mais de 120 mil pessoas para comemorar o Dia do Trabalhador na Praça da Matriz.

Após a celebração de uma missa e tendo à frente líderes políticos e sindicais, mulheres e crianças, a multidão dirige-se em passeata até o Estádio da Vila Euclides, em desafio às proibições da PM.

Ou a repressão recuava ou haveria um banho de sangue de consequências imprevisíveis. Mas o Exército e a polícia se retiraram, abandonando a cidade, que viu uma de suas maiores manifestações de 1º de Maio.

A pá de cal na ditadura
A paralisação encerrou-se 41 dias após seu início e foi a mais prolongada greve de trabalhadores ocorrida nos 50 anos anteriores da história do País.

Alguns dias depois, os dirigentes sindicais, ainda presos, foram colocados em liberdade.

Os trabalhadores não tiveram todas as suas propostas atendidas, mas o movimento teve um alcance muito maior que as reivindicações iniciais.

Ele abalou profundamente as estruturas de dominação da ditadura e os métodos usados para oprimir o povo brasileiro por 16 anos.

Os metalúrgicos podem ter perdido a guerra, mas ajudaram a derrotar o governo militar.

Foi nesse confronto que os companheiros mostraram a todo o País que era possível resistir aos militares mesmo que eles estivessem com as tropas na rua. Mais que resistir, era possível avançar.

A política salarial e a lei antigreve, já abaladas desde 1978, caminharam ainda mais rapidamente
para a lata de lixo; intensificaram-se as mobilizações para a fundação do PT e da CUT; e toda a mobilização da sociedade civil para o fim da ditadura teve um incremento incrível.

* Publicado na edição nº 2814, de 22/04/2010, da Tribuna Metalúrgica (jornal do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC)

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