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O assassino ficou de zonzeira (jornal O Rio Branco)

publicado em 20/07/2010

Fonte: O Rio Branco,  14/10/1984

 

Por Elson Martins

 

As ruas estavam mal iluminadas naquela noite de 21 de julho de 1980 em Brasiléla, na fronteira com a Bo1ívia. A cidade assistia mais um capítulo da novela. "Água Viva", transmitido por uma repetidora de TV. O personagem Miguel  Fragonard caia morto em sua residencia, fulminado por um tiro misterioso. Na sede do Sindicato de Trabalhadores Rurais, o direto sindical João Bronzeado, convidou Wilson Pinheiro, presidente da entidade: “Companheiro, vamos largar mão dessa novela e ajeitar nossa papelada. Novela não dá futuro para trabalhador”.

Eram 8h30. Wilson não teve tempo de responder ao companheiro, Do lado de fora da casa vieram os disparos, três no todo, com destino certo, Wilson, magro, quase dois metros de altura. mas rígido como madeira  de lei, levantou-se com as mãos na cintura e duas balas de aço nos rins, Caminhou alguns passos no rumo do escritório, disse "valha-me Deus" e caiu como uma árvore.

João Bronzeado, o "cuidante" da casa Severo, o motorista Tavinho e o trabalhador rural Dionízio Tabosa de Mesquita, que estavam na sala de TV, perceberam a ameaça e jogaram-se ao chão. Bronzeado ainda viu um vulto correndo na quadra de futebol do salão da frente. Segundos depois chegaram até Wilson que agonizava. O grande líder sindical morreu ali, no centro das lutas dos trabalhadores rurais.

Foi obra de um profissional do gatilho, afirmou um dos mais experientes delegados de Policia do Estado, designado para tomar conta do caso.

Mataram o Wilsão

A noticia invadiu a mata pela emissora de rádio local. O próprio Bronzeado, emocionado, ocupou o microfone anunciando com voz embargada: "Mataram o Wilsão, companheiros!"

Na manhã do dia seguinte, começaram a chegar os seringueiros, colonos e posseiros que caminharam a noite toda pela mata e pela BR-317. Mais de mil trabalhadores rurais passaram diante do cadáver de Wilson Pinheiro, velado na sede do Sindicato. Alguns colocavam a mão no peito e prometiam vingança. Outros, prometiam antes acesa a chama do Sindicalismo e a união da classe.

A vingança. seria concretizada uma semana depois com a morte do capataz Nilo Sérgio de Oliveira, tido como mandante do crime. A chama do sindicato, porém, perdeu muito do seu brilho.

Pior para eles

Nascido em Careiro, pequeno município do Amazonas, Wilson ficou órfão de pai e com mais dois Irmãos trabalhava para sustentar a mãe. Por isso só pode estudar o primário. Durante alguns anos· foi lixeiro da Prefeitura de Manaus. A família passava dificuldades, ele então procurou melhorar de vida nos garimpos de Rondônia. Apanhou malária e outras doenças, exauriu ,sua juventude sem conseguir nada. Mandava um dinheiro curto para a mãe. Acabou viajando para o Acre e não soube mais da família.

Nas matas do Acre virou seringueiro. Passou vinte anos no seringal Sacado, pr6ximo de Assis Brasil na fronteira com a Bolívia e o Peru. Constituiu família com mulher e oito filhos (sete mulheres e um homem). Em 1975, a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que começava a organizar os sindicatos de trabalhadores rurais do Estado o encontrou, com 47 anos, sofrido, ameaçado juntamente com outros seringueiros de serem expulsos da terra. Os seringal estavam sendo vendidos aos fazendeiros do centro-sul e o boi tomava o lugar do homem na floresta.

Wilson participou de todas as reuniões do Sindicato, desde a primeira, na colocação de dona Valdizia, tornando-se delegado sindical em sua área e mais tarde presidente da entidade. Foi reeleito pelos companheiros que confiavam nele e o admiravam. "Ele tinha um tino administrativa e falava com o trabalhador como um irmão", afirmava, Costa Campos no velório. “Foi um homem de muito respeito. Não tem ninguém que possa dizer uma vírgula contra ele”, complementou João José Fernandes, outro membro do sindicato. “Ah, se não fosse ele os fazendeiros tinham derrubado tudo quanto  era seringueira e castanheira”, disse outro.

Era um líder sincero, que falava morno até com os inimigos de classe. Confiava nas leis que protegiam o trabalhador e insistia que este devia conhecê-las bem. Se, entretanto, os direitos do trabalhador não eram respeitados, ele os fazia valer pela força. "A coisa mais incrível que eu acho – dizia - é que todo mundo dá preço no que é seu, mas o seringueiro não tem esse direito". Em algumas ocasiões, dizia que "nós vamos lutar não é matando ninguém é simplesmente dentro do direito que nos cabe". Quando, porém, começaram a surgir as ameaças por· parte dos fazendeiros, ele avaliou bem os efeitos: "Se me matarem, pior para eles".

O mutirão dos "empatas"

Conflitos pela posse da terra, inclusive com mortes, aconteciam no Acre desde o começo dos anos setenta. Até a formação dos sindicatos, em 75, o ritmo doas motoserras na floresta acreana era intenso e a ação dos fazendeiros não encontrava impedimentos. Os peões eram contratados em Mato Grosso (chegavam a Rio Branco de Boeing, passando direto para as fazendas. O desmatamento e o fogo chegavam as colocações dos seringueiros e aos roçados.

Ameaçados com suas famílias os seringueiros juntaram-se em tomo do sindicato e reagiram. Com mutirões de 50, 60 e até mala de 100 homens começaram a "empatar" as derrubadas. Eles surgiam de repente do centro da mata portando espingardas de caça, facões de bainha e terçados; cercavam os acampamentos dos peões, jagunços e capatazes mandando parar o serviço. Os fazendeiros tiveram que procurar o sindicato para propor acordos através dos quais algumas áreas passaram a ser respeitadas e seringueiros receberam indenizações.

A tática dos "empatas" espalhou-se por todo o Acre na segunda metade da década de setenta e Wilson de Souza Pinheiro era um dos principais articuladores do movimento, com base forte em Brasiléia e Xapuri. Irritados, os fazendeiros reforçaram suas guardas de jagunços, importando-os de Goiás, Mato Grosso e do Paraguai. Compraram armas poderosas, como metralhadoras, na vizinha Bolívia. Como não podiam mais expulsar os seringueiros, como faziam antes, voltaram sua ira para os dirigentes sindicais. 

Matar, solução apontada

Numa. reunião que a Sudhevea promoveu com os seringalistas de Xapuri, no dia 14 de junho de 1980, configurou-se a ameaça contra o líder sindical Wilson Pinheiro. Na presença de fazendeiros, representantes do Incra, Emater, Banco da Amazônia e de líderes sindicais, o seringalista aposentado Guilherme Lopes (já falecido), pegou o microfone da Rádio 6 de Agosto, que transmitia o encontro e apresentou uma proposta para resolver o problema dos patrões:

- Matar o presidente do Sindicato, os padres e o delegado da Contag.

A sugestão encontrou boa acolhida entre seringalistas e fazendeiros que, depois da reunião, procuraram o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Luís Damião, para que ele transmitisse mais este recado para os posseiros e seringueiros:

- A partir de agora, vai haver . muitas viúvas no Acre.

A primeira viúva foi a mulher de Wilson Pinheiro. Antes, Wilson já havia recebidos ameaças mais diretas do capataz Nilo Sérgio, da Fazenda Nova promissão (em Brasiléia), que anunciou ter comprado um revólver para acabar com ele. Pouco antes de ser assassinado, Wilson comentou com alguns companheiros: “Se me acontecer alguma coisa, podem estar certos de que partiu do Nilão”.

Por isso, uma semana depois da morte de Wilson, no dia 27 de julho Nilo Sérgio de Oliveira foi morto por um grupo de trabalhadores rurais na BR-317.

Os trabalhadores voltavam de um ato público organizado em Brasiléia pelo Partido dos Trabalhadores. Participaram do encontro o presidente regional do partido, Luís Inácio da Silva, o Lula, Jacob Bittar, o presidente nacional da Contag, José Francisco da Silva, o delegado regional João Maia da Silva Filho e o presidente regional do PT vereador Francisco Mendes: Todos eles foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, acusados de terem instigado os trabalhadores para que matassem Nilo Sérgio.


Zonzeira

O capataz, porém, já estava marcado para morrer, por causa das ameaças que havia feito a Wilson e porque, durante o velório, os trabalhadores, pela via da superstição, confirmaram sua culpa. Antes do enterro de Wilson Pinheiro, os trabalhadores colocaram uma moeda sob a sua língua, amarraram uma toalha nas canelas do cadáver, deixaram os sapatos emborcados debaixo do caixão e, finalmente, enterraram o defunto de bruço. Com estas providências, explicou João Bronzeado, o assassino fica de zonzeira e “Nilão estava de zonzeira”.

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