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Memória de um movimento

publicado em 20/07/2010

Por Elson Martins





Eu conheci Wilson Pinheiro em dezembro de 1975, numa reunião para fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. Os fazendeiros do centro-sul que haviam comprado um terço das terras acreanas tratavam de expulsar as famílias que encontraram vivendo nos seringais adquiridos. Os seringueiros e os pequenos agricultores localizados na BR-317 – estrada não asfaltada que ligava Rio Branco a Assis Brasil – viviam em pânico.

As famílias do seringal Sacado, como outras de Brasiléia, Xapuri e do Acre inteiro, se sentiam desamparadas. Seguindo as diretrizes do Governo Federal, o ex-governador Francisco Wanderley Dantas (1971/1975) tinha colocado o estado em leilão: os seringais  foram vendidos com os seringueiros dentro e o terror chegara à floresta. Fazendeiros e grileiros do sul, seringalistas, jagunços, policiais civis e oficiais de justiça, advogados e até juizes infernizavam as famílias pressionando para que saíssem das terras. No caso Sacado, o novo dono mandara avisar que não se interessava por nada que não fosse a terra limpa para plantar capim e criar boi. Ia derrubar seringueiras, castanheiras, o diabo que fosse. Quem tivesse a idéia de borracha e manutenção da floresta ficasse sabendo que o Acre tradicional ia desaparecer!

Os trabalhadores não tinham a quem recorrer, exceto à Igreja, através das Comunidades Eclesiais de Base, assim mesmo porque o bispo era D. Moacyr Grechi, partidário da Teologia da Libertação. Os fazendeiros estavam levando vantagem quando a direção da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) em Brasília indicou o sociólogo e economista rural João Maia da Silva Filho para atuar como delegado regional no Acre e criar os sindicatos dos trabalhadores (oito, incluindo o de Boca do Acre, no Amazonas).

Uma antiga seringueira do Sacado, dona Valdiza Alencar de Souza, ouviu pelo rádio a notícia da chegada de João Maia e de sua missão. Ela morava no km 71 da estrada de Assis Brasil, intransitável no inverno (mas hoje asfaltada e caminho para o Oceano Pacífico), mas não contou conversa: meteu o pé na lama e chegou a Brasiléia. Dali, pegou um ônibus e foi conhecer o doutor João Maia em Rio Branco. O delegado pediu a ela que reunisse os seringueiros em sua residência, na BR, e foi até lá com o advogado Pedro Marques, um ex-caminhoneiro cearense com 1,85 de altura, gordo, valente e preparado. Fui com eles. Contratamos um sujeito apelidado de “Espanhol”, dono de uma camionete com tração nas quatro rodas, para nos levar até lá, e vivemos um rali indescritível. Ali, na casa de dona Valdiza, se deu o passo inicial para criação do primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Acre. E Wilsão estava lá, destacando-se com seus quase dois metros de altura, magreza e olhar triste.

Chovia muito. Dona Valdiza chamou todo mundo para dentro da casa, onde havia uma sala grande com dois ou três bancos compridos encostados à parede e um corredor que dava para o quarto e cozinha. Em volta só existia a floresta densa. Ela sentia-se feliz com o evento porque os homens do seringal não acreditavam que uma mulher fosse capaz de conseguir alguma ajuda, sobretudo naquela situação aflitiva. Mas ali estava João Maia em carne e osso.

Durante a reunião surgiram os relatos: sujeitos estranhos com revolver na cintura, bota de cano longo e chapelão na cabeça apareciam nas colocações em horas que os maridos se encontravam na mata cortando seringa. Parecia assombração: perguntavam pelo dono da casa num tom que deixava mulher e filhos aflitos. O medo se espalhava. Um gerente de fazenda, chamado Horácio, estabeleceu prazos no seringal Carmem  para o pessoal sair. Quem tivesse benfeitoria poderia receber pequena indenização; quem não tivesse, nem isso. Com um detalhe: barraco, defumador e pequenos roçados não contavam.

Os primeiros “acordos” foram feitos na sede dos proprietários com jagunços apontando armas para os seringueiros. Alguns  aceitaram pequenos lotes, que abandonaram em seguida. A cena se repetia no estado todo, do vale do Acre ao Vale do Juruá. Ouvia-se o ronco da moto-serra e o estalar do fogo nas matas. Era o fim do mundo. “Só Deus me tira daqui”, dizia, entretanto, com as mãos postas, uma velha mãe seringueira.

“Querem café?” –  oferecia dona Valdiza, a toda hora, com um coração radiante. Os convidados tinham comido galinha caipira no caldo com farinha e começaram a ouvir as diferentes versões do medo. O doutor João Maia e o advogado Pedro Marques da Cunha Neto eram a novidade: apareceram enlameados e molhados, após a travessia dos atoleiros, e agora iam propor alguma forma legal de resistência. O que fazer? Wilson Pinheiro e muitos outros ouviram os dois chamarem atenção para o Estatuto da Terra e o Código Civil Brasileiro. Alguns artigos desses documentos eram claros: ninguém podia ser obrigado a sair da terra, menos ainda ter a família ameaçada. O corpulento advogado da Contag passava lições de direito.

No dia 22 de dezembro, vésperas do Natal, a Igreja de Brasiléia se encheu de  homens, mulheres e crianças que vibravam com a criação do sindicato. Foi escolhida a diretoria provisória, os delegados sindicais, agora era correr com a papelada e criar raízes na terra. A situação de confronto foi colocada por alguém que usou a expressão “nós e eles”.

Elias Rosendo, um negro piauiense de boa lábia, que nas horas vagas ganhava um trocado fotografando, foi  escolhido presidente. Mais pela facilidade do discurso (confuso) que por outra qualidade. O quieto Wilson Pinheiro e o desconhecido Chico Mendes ajudaram na mobilização e se  tornaram membros da diretoria. Dona Valdiza ostentava a função de delegada sindical na sua área. A cidade de Brasiléia fervilhava de gente da floresta e João Maia pedia moderação na cachaça. “O trabalhador – alertava – não pode ser chamado de arruaceiro”.

O movimento cresceu com a ajuda das Comunidades Eclesiais de Base, que somavam mais de 500 núcleos organizados na floresta. Em 1976, saiu do seringal Carmem  a notícia do primeiro empate: “uma família ameaçada de expulsão permaneceu na colocação. Foi o sindicato”! A Contag passou a negociar com os fazendeiros indenização com lotes de 50 a 100 hectares. Decisão errada. Logo se viu que isso não era solução: o seringueiro era extrativista, não agricultor, e também não tinha meios de transformar a floresta em terra agrícola. Aqui aparecia o embrião do conceito de Reserva Extrativista.

Elias Rosendo atrapalhou-se com suas múltiplas atividades, foi afastado e substituído pelo primeiro grande líder do movimento dos povos da floresta: Wilson Pinheiro.

 

Indignação cautelosa

Nascido em Careiro, pequeno município do Amazonas, Wilson ainda jovem tornou-se órfão de pai. Com mais dois irmãos passou a sustentar a família trabalhando como lixeiro da Prefeitura de Manaus. Passavam muitas dificuldades, por isso sonhou com a vida de garimpeiro em Porto Velho, estado de Rondônia. Foi para lá, adoeceu de malária e exauriu a juventude sem melhorar de vida. Mandava mixaria para a família. Depois, ficou sem notícias da mãe e, desolado, enfiou-se nas matas acreanas tornando-se seringueiro. Casou, teve oito filhos. Estava há 20 anos no seringal Sacado quando apareceram os fazendeiros.

A Contag o encontrou  em 1975 com 47 anos, sofrido e triste, mas com energia para juntar-se aos companheiros e resistir. Era valente, sério, de poucas palavras mas muita ação. Quando falava media o que dizia, não queria formular nenhum pensamento torto. Sua coragem animava outros companheiros do seu e dos outros 7 sindicatos criados em seguida. Todos o procuravam e pediam orientação. Estava no segundo mandato como presidente do Sindicato de Brasiléia quando foi assassinado, de emboscada, em 21 de julho de 1980. O jornal Varadouro registrou:

Eram 8h30 da noite, a pequena cidade fronteiriça com a Bolívia assistia a novela “Água Viva”, em que o personagem Miguel Fragonard caia morto em sua residência, atingido por um tiro. Wilson também via a novela na sede do sindicato. Seu companheiro de diretoria, João Bronzeado, acabava de dizer: “Companheiro, vamos largar de mão essa novela e ajeitar os nossos papéis. Novela não dá futuro para trabalhador”. Wilson, que se levantara, não teve tempo de responder. Do lado de fora da casa partiram três disparos que lhe atingiram os rins e ele caiu morto.

“Ele tinha um tino administrativo, falava com o trabalhador como um irmão”; “Foi um homem de muito respeito. Não tem ninguém que possa dizer uma vírgula contra ele”; “Ah, se não fosse ele os fazendeiros tinham derrubado tudo quanto era seringueira e castanheira”. Assim falaram os companheiros chorando sobre o seu cadáver. Uma semana depois, um grupo desses sindicalistas revoltados matou Nilo Lopes, o capataz de fazenda  suspeito de  ser o mandante.

De fato, nem uma vírgula se podia dizer contra o amoroso pai de família, seringueiro de boa reputação que fez  sindicalismo sério e corajoso. Ele era o grande incentivador dos “empates”. No começo dos anos oitenta, os “empresários” do centro sul já haviam comprado boa parte das terras do Acre e derrubavam a floresta com vontade insana. O Acre era um conflito só, imenso. De um lado, seringueiros, ribeirinhos e colonos organizados em oito sindicatos com 25 mil associados. Do outro, fazendeiros, grileiros e jagunços, além de policiais civis, advogados, políticos, autoridades públicas, seringalistas, comerciantes e membros da justiça. A elite local queria tornar-se fazendeira e latifundiária como os aventureiros que chegavam. Estabeleceu-se uma luta desigual para quem vivia na floresta sem poder político e sem dinheiro.

Sob o comando de Wilson PiWilson de Souza Pinheiro (1933-1980), seringueiro e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, no Acre, e membro da Comissão Municipal Provisória do Partido dos Trabalhadores naquele município. Liderou o que ficou conhecido como “mutirão contra jagunçada”, episódio em que centenas de trabalhadores marcharam contra os bandidos que ameaçavam os posseiros da região. Tomaram dezenas de rifles e entregaram as armas ao Exército. Acuados pela liderança de Pinheiro, os latifundiários da região mandaram matar o seringueiro na noite de 21 de julho de 1980. nheiro, contudo, os trabalhadores realizaram em 1979 o chamado “grande mutirão contra a jagunçada”, na estrada de Boca do Acre, com mais de 300 sindicalistas. Esse evento foi um marco de resistência. Confiante, Wilson mandou o recado duro que apressou sua morte: “Nós não vamos  permitir desmatamentos no Acre”. O recado afrontou as elites e até autoridades públicas (do IBDF, Incra, da segurança estadual e federal). Numa reunião da Sudhevea (Superintendência da Borracha, extinta)  promovida em Xapuri, no dia 14 de junho de 1980, o ex-seringalista Guilherme Lopes, folclórico e falastrão, sugeriu uma solução para acabar com os “empates”: matar o presidente do Sindicato, os padres e o delegado da Contag. Sugestão acatada. Oito anos depois de Wilsão, mataram também Chico Mendes, no dia 22 de dezembro de 1988, às 18h30, quando saia da cozinha para o quintal de sua casa. Com tiro de chumbo no peito.

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