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Carta de Chico Mendes para a Fundação Wilson Pinheiro (1984)

publicado em 20/07/2010

Fonte: Acervo CSBH

 
Xapuri, 02 de novembro de 1984

 

 

Ao Instituto Wilson Pinheiro (1),

 

Companheiros,

 

Com o objetivo de mantê-los informados sobre o assassinato de nosso inesquecível companheiro Wilson, estamos enviando alguns dados recentes a respeito do crime.

O Jornal “O RIO BRANCO” edição de 11-10-84, publicou em primeira página uma matéria e nós estamos providenciando mais alguns dados inclusive mandaremos breve algumas cópias xerocadas.

A matéria tem o seguinte título:

CRIME DESVENDADO

A seguir transcrevemos alguns trechos na íntegra.

Diz a matéria:

Quatro anos e dois meses após o assassinato do líder sindical Wilson Pinheiro, presidente do S.T.R. de Brasiléia, morto a tiros de revólver no dia 21 de julho de 1980, quando assistia um programa de televisão, na sede do sindicato, junto com alguns companheiros, enfim sabe-se que o matou, de pois de o inquérito policial ficar arquivado no rol dos chamados “crimes insolúveis”.

Um trabalho da equipe de reportagem de O RIO BRANCO, que vem cobrindo o rumoroso caso desde o dia da morte de Wilson Pinheiro, em Brasiléia, levantou o fio da meada e chegou aos nomes dos criminosos e dos mandantes do homicídio, que produziu saquelas diversas.

 

MATADOR JÁ MORREU

 

O caso começou a ser levantado com a morte de um dos pistoleiros, o peão José Antônio Prado, morto a golpes de faca na manhã de sábado passado, pelo seu cunhado Waldemar Ferreira da Silva, no centro do bairro Triângulo Novo, da cidade de Rio Branco. Foi Waldemar Ferreira o primeiro a dar pistas para saber o autor do abate de Wilson Pinheiro, ao narrar em depoimento sigiloso tomado pela polícia detalhes importantes sobre a morte do sindicalista. Ontem o homicida Waldemar, que se encontra recolhido à penitenciária do Estado, resolveu contar tudo o que sabia a O RIO BRANCO.

- O José Antônio Prado, o “PARAGUAIO” foi na verdade um dos pistoleiros que matou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, o Wilson Pinheiro. Eu matei o José, mas éramos amigos, tanto é que vivia amigado há três anos com a minha irmã Maria Antônio.

Nas nossas conversas, principalmente quando a gente estava bebendo, gostava de contar os seus assassinatos. A morte que mais se orgulhava de ter praticado era a do Wilson Pinheiro, pela repercussão que o caso teve no país inteiro. Segundo José, ele e outro pistoleiro de nome Manezinho, foram contratados para matar o Wilson Pinheiro a mando do capataz Nilo Sérgio, da fazenda Nova Promissão. Na época do crime, José Antônio era peão na fazenda de Nilo, contou Waldemar Ferreira da Silva, à nossa reportagem, ontem de manhã, em sua cela na penitenciária.

 

A VIÚVA ABRIU O JOGO E CONTOU TUDO

 

As revelações bombas de Waldemar não ficaram somente nesse episódio. Ele disse que “antes de matar 'Paraguaio” (apelido do cunhado), ele tinha me dito que estava em Rio Branco contratado para cumprir missão muito importante, a de apagar um fazendeiro paulista; pela empreitada receberia Cr$ 3.000.000,00. O serviço iria ser feito no mesmo dia em que eu o matei, à tarde. E a vítima jurada de morte, morreria mesmo, meu cunhado não fazia negócio para não cumprir”. Ainda segundo o matador do cunhado, ele se gabava de ter matado o trabalhador rural José Catarino (em Rio Branco, ano passado) e um outro em Nova Andradina, Mato Grosso.

 

VIÚVA CONFIRMA

 

Mas as minúcias do caso Wilson Pinheiro foram contadas pela amásia de José Antônio, Maria Antônia, ontem à nossa equipe de reportagem, em sua residência, na Cidade Nova. Antes tinha contado a mesma história à polícia.

- É verdade, o Wilson Pinheiro foi morto pelo meu amante José Antônio. Sempre que bebia e quando a gente estava na intimidade ele me contava tudo. O Sé foi contratado pelo fazendeiro Nilo Sérgio, com quem trabalhava na Fazenda Promissão, em Brasiléia. O contrato da morte do presidente do Sindicato foi acertada em 600.000,00 pagos adiantadamente, diz Maria Antônia. Tranquila sem demonstrar insegurança, Maria Antônia confirmou que seu amante José Antônio era um homem frio. “Já tinha três mortes nas costas, se gabava muito disso”, prosseguindo – enfatizou:

“O Zé, no dia da morte de Wilson Pinheiro esteve tomando banho com a vítima em uma igarapé em Brasiléia. Naquela manhã não teve chances de eliminar o Wilson por causa de outras pessoas no banho. Wilson e o José regressaram então à cidade. De noite o José Antônio saiu para cumprir o contrato que tinha feito com o Nilo Sérgio. Quando o presidente do Sindicato estava assistindo televisão, o Paraguaio, que atirava como ninguém, mirou e o matou ali mesmo. Depois do serviço passou algum tempo em Brasiléia e acabou por ir trabalhar com outros fazendeiros. Meu amante também me contou que um outro fazendeiro, este de Boca do Acre, de nome Narciso, também teve culpa da morte do Pinheiro.

Estes portanto são dados que colhemos a respeito da morte do companheiro Wilson.

Aguardem novos dados.

Saudações sindicais,

 

a) Francisco Mendes Filho

Presidente do S.T.R. de Xapuri -Acre

(1) Chico Mendes, por equívoco, chama de Instituto a Fundação Wilson Pinheiro. Esta Fundação foi instituída pelo Partido dos Trabalhadores em 1981, com a finalidade de realizar estudos e pesquisas, prestar serviços técnicos e promover atividades de formação política. Com as modificações na legislação político-partidária decorrentes da nova Constituição brasileira de 1988, a Fundação Wilson Pinheiro foi sucedida pela Fundação Perseu Abramo em 1996.

  Abaixo a reprodução dos originais:

página 1

página 2

 

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Partido dos Trabalhadores


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