você está em:

 


 

Trajetória da Ação Popular foi tema do Ciclo de Debates "A propósito"

publicado em 15/09/2010

Por Evelize Pacheco, Comunicação FPA
Por: 
Evelize Pacheco, Comunicação FPA

Um público de estudantes, militantes e testemunhas históricas acompanhou, na noite de terça-feira (14/09), o debate Esquerdas Brasileiras: a história da AP (Ação Popular). O evento, que integra o ciclo A propósito promovido pelo Centro de Memória Sérgio Buarque de Holanda, aconteu no auditório da Fundação Perseu Abramo,  e contou com mais de 40 participantes, além dos internautas que acompanharam a transmissão on-line pelo twitter da Editora Fundação Perseu Abramo (@editora_perseu) e pela TVPT do Diretório Estadual de São Paulo, no link do Portal da Fundação Perseu Abramo.

Os debatedores convidados foram Marcelo Ridenti, professor da Unicamp e pesquisador das organizações de esquerda e Ricardo de Azevedo, ex-militante da AP e ex-presidente da FPA. Ridenti abriu o evento com um quadro histórico da Ação Popular, partindo dos grupos de jovens católicos, notadamente a JUC (Juventude Universitária Católica), e de jovens protestantes nos anos 50 até a dissolução da organização, já no início dos anos 80. Segundo ele, a AP passou por várias fases que mostram sua transformação ideológica de matiz cristã até o alinhamento com os princípios da Revolução Cultural na China, sempre dialogando com  modelos de ação revolucionária que se colocavam naquele período de Guerra Fria, em relação ao modelo de comunismo soviético stalinista. A Ação Popular integrava a juventude estudantil e operária de vários estados brasileiros espalhadas em bases municipais, e no ínicio dos anos 60 ganhou expressividade política dentro da UNE (União Nacional dos Estudantes), tirando do poder os estudantes ligados à UDN (União Democrática Nacional). Neste período, permanecem na AP os jovens mais identificados com os socialistas e comunistas e ações como a UNE Volante - grupos que rodavam o Brasil com apresentações artísticas para o povo - circulavam idéias e costuravam grupos que ampliaram a atuação da AP em todo o país.

 

Com o golpe de 64, muitos militantes da AP foram presos e muitos foram para o exílio -- é quando a luta armada entra na pauta de ação do grupo, que se dividia quanto ao modelo a ser seguido naquele momento. Uma parte do grupo foi a Cuba para se aproximar da experiência revolucionária de Fidel Castro na ilha, e outra entrou em contato com a Revolução Cultural de Mao Tse Tung na China. A idéia central da Revolução Cultural, de derrubar as barreiras entre o intelectual e o trabalhador, predominou no grupo e os identificados com Cuba foram expulsos da Ação Popular. De acordo com o professor, os militantes que vinham das classes médias urbanas receberam a tarefa de se transformarem em camponeses e operários, para viver no meio do povo e a partir desta experiência organizar a revolução. E Ridenti afirma que este modelo já estava na matriz cristã da AP, com as experiências dos padres operários franceses. Finalizando a apresentação, Ridenti fez referência à aproximação do PCdoB com setores da Ação Popular, apadrinhado pelo PC Chinês. Essa aproximação resultou na formação de um novo grupo em 1971, o APML.

Na sequência, Ricardo de Azevedo, que irá lançar livro em que relata suas experiências na AP, deu início à sua fala. Ele explicou que entrou na organização em 1968, na sua fase maoísta. "Sou maoísta, religiosamente maoísta. Sou ateu desde os 12 anos", ressaltou. Segundo Azevedo, para entender o que era ser militante naquele ano, naquele momento, é preciso entender o contexto histórico. "68 foi o ano da efervescência, foi o marco do desencantamento da juventude com o mundo, com a política, com a sociedade, com tudo". Dentro da Guerra Fria, alguns acontecimentos mostravam um novo caminho como a derrota dos EUA pelos vietnamitas, as rebeliões populares na Europa, as resistências às ditaduras na América Latina, os levantes contra o Estado soviético como a Primavera de Praga. Sobre o maoísmo, Azevedo ressalva que hoje percebe sérios equívocos neste posicionamento, mas que naquele momento a Revolução Cultural avançava no sentido do "socialismo mais libertário", em que as massas participavam ativamente da mudança de seus destinos e transformavam valores, além das estruturas. "Hoje vejo que foi até nefasto esse movimento de luta pelo poder". Baseado neste modelo importado, os militantes da AP faziam a leitura de que a realidade estrutural brasileira era semelhante à chinesa e que as tarefas revolucionárias deveriam ser  a organização dos camponeses e dos operários para uma guerra popular a partir dos campos para cercar as cidades. Segundo Azevedo, tal leitura sobre o Brasil semi-feudal foi questionada por vários setores da AP ditos revolucionários. Neste momento, uma grande parte dos militantes se filia ao PCdoB.

Essa discussão se desenrolou durante o período de maior repressão aos grupos de esquerda no Brasil pelos militares, após o AI-5 até 1972. A Ação Popular, como outros grupos, foi desmantelada pelas seguidas prisões, assassinatos e desaparecimentos de seus integrantes. Houve um isolamento das bases sociais, principalmente dos setores de classe média urbana naquele momento e Azevedo aponta dois fatores: o medo de ser morto - que leva ao chamado "desbunde"- ex-militantes deixaram a luta política para formar comunidades hippies. Além disso, o crescimento econômico, mesmo excludente, atraiu setores da classe média para o lado do governo militar. Na avaliação de Azevedo a AP ganhou uma sobrevida até os anos 1980 por três fatores: a permanência de alguns militantes no Brasil; a decisão da organização em apoiar candidaturas de esquerda na lista do MDB nas eleições de 1974 e a retomada das atividades no movimento estudantil, que volta às ruas pelas liberdades democráticas e pela anistia. Quanto à participação eleitoral, Azevedo destaca que as organizações de esquerda defendiam o voto nulo, porque durante a ditadura existiam dois partidos, Arena e MDB, que não representavam o povo e não provocariam as transformações sociais e econômicas, que se dariam apenas pela via revolucionára. Nesta fase, a AP se reorganiza na ideia de formar um partido popular, concebendo o que seria o PT. Para isso, a Ação Popular busca os sindicalistas autênticos no final dos anos 70 integra o movimento pró-PT. Segundo Azevedo, com a adesão ao projeto do Partido dos Trabalhadores a AP esgotou seu papel político. Um outro setor da Ação Popular permaneceu com o MDB, e posteriormente esses militantes integraram o PSDB.

Após a apresentação, foi aberto o debate ao público para questionamentos e declarações sobre o tema, e finalizando o evento, foram sorteados livros da Editora Fundação Perseu Abramo, além das revistas Teoria e Debate e Perseu.

 

Tags:  




 

Partido dos Trabalhadores


FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
Rua Francisco Cruz, 234 - Vila Mariana - CEP 04117-091 - São Paulo - SP - Brasil Fone: (11) 5571-4299 - Fax (11) 5571-0910