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Os esperados

publicado em 10/09/2012

Por Pedro Tierra
Por: 
Pedro Tierra

 

I. Abertura l975

A Porta dos palácios não se fechou.
Há pranto no país?
Mobilizai reservas de silêncio!
Da praça onde o último canto,
o último pranto resistem,
não fuja nada
além do gesto emudecido.
É imprescindível
manter o canto sitiado.
O eco do pranto não roube
o sabor do banquete.
O sangue dos rebelados não tinja
o verde-ouro das divisas,
e haja sombra suficiente
a envolver os alicerces do "milagre"...
Não chegue o ofício da morte
além do rigoroso limite da noite.
Não se permita à mão ferida
semear a surda semente de liberdade.
 
II. A Espera

A noite rouba o contorno das coisas.
Um silêncio povoado de perguntas
habita a casa e teus olhos, mãe.
As crianças adormeceram sem resposta.
Plantada no peito
um secreta semente de inquietude.
Acidente? Os hospitais não responderam.
A noite abriga muitos perigos.
Os poderosos do dia se calam.
Há, contudo, muitos crimes no país...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um rumor de passos na escada.
A angústia desfeita, uma vontade
de rir dos vãos temores,
das horas perdidas de sono.
Mas a porta range
como se reclamasse mais carinho
e os sapatos na sala não têm
o jeito sossegado de quem retorna.
Tem, antes, um pisar sombrio
que marca o chão e teus olhos, mãe.
Vieram calados
como um vento de desesperança.
A chuva insiste em dissolver
os passos esquecidos no jardim.
Resta agora um silêncio maltrapilho
como o instante que precede o pranto.
 
III. O Destino

Batidas as portas.
Perdidas as chaves da sombra.
Esta é uma terra de crime.
Marco na parede o nome dos mortos
e morro no corpo de cada um
e revivo, cinza recomposta,
nos sonhos de cada um...
Lavo as feridas do tempo.
Recolho entre os dedos
a chuva e com ela componho
e com ela componho
um acalanto humilde
ao sono dos torturados.
E cada um é um só e todos,
é meu pai, meu irmão,
a noiva perdida, é meu próprio corpo
marcado pelo suplício.
E cada um é força. Semente.
E não há noite, por mais treva,
capaz de ceifar as flores,
sentinelas dos túmulos
provisoriamente ignorados...
 
IV. Persiste a Sombra

Atrás das portas abertas
a pedra dos muros vigia,
a sombra dos mortos persiste,
o grito dos vivos corrói
as paredes da noite.
Os poderosos do dia se calam.
Há, contudo, muitos crimes no país...
Marco nas paredes da cela
o nome dos esperados
e espero no corpo de cada um.
Revivo, cinza recomposta,
nos sonhos de cada um.

 

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