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Ensaio: Saudades do que não foi

Teoria e Debate nº 36 - outubro/novembro/dezembro de 1997

publicado em 13/05/2006

A Fernando Haddad

por Maria Rita Kehl*

Já estou acostumada a entrar no cinema sabendo que tenho grandes chances de sair chorando. Sou presa fácil das intenções melodramáticas dos diretores: sempre que eles querem que o espectador chore, eu choro. De tristeza, emoção, triunfo, amor, piedade ou pura pieguice. Não tento resistir, acho que gosto de ter estas oportunidades de sofrer ou me comover vicariamente, com dores e alegrias que não são minhas, das quais posso me esquecer, sem culpas, quando quiser.

Ou não. Quando o filme acaba, o choro passa e eu continuo sem conseguir esquecer, com as cenas passando e repassando no cinema da memória, começo a me perguntar, a sério: o que foi que aconteceu? Foi assim quando assisti a um longo documentário sobre a vida de Che Guevara. Chorei no começo, no meio e no fim. Nas cenas descontraídas, nas cenas triunfantes, na derrota final. Saí do cinema, o filme veio junto. Fiquei perguntando: o que me aconteceu?

Saudades, é claro. Tive um surto de saudades, chorei de saudades, passei o resto do dia com saudades. Saudades do que não foi, pensei. Saudades do que não fui. Como é que se pode ter saudades sinceras, doídas, do que não se viveu? Não me perguntem. Fico pensando nos versos de Fernando Pessoa: "quem escreverá a história/do que poderia ter sido?"

Hoje em dia não escondo mais o que durante muito tempo me envergonhou: fui uma esquerdista tardia. Bem tardia. Tinha doze anos na ocasião do golpe militar em 64, e minha tia avó me pediu para rezar com ela para que os comunistas não tomassem conta do nosso país; pensando numa séria disputa entre as forças do Bem e as do Diabo, eu rezei com toda a fé de que era capaz. Em 68, secundarista num colégio de freiras, sabia que alguma coisa séria estava acontecendo – mas não era comigo. Enquanto o enterro de Edson Luiz agitava minha geração, eu estudava, em paz com a ditadura, cuja política econômica afinal havia beneficiado bastante minha própria família. Meu pai era engenheiro executivo numa grande empresa que se expandiu muito depois do golpe – e nós com ela. Do que aquela gente estava reclamando?

Entrei na USP acreditando em soluções "bem intencionadas" (ao menos eu, juro, me achava bem intencionada) para se fazer justiça social no Brasil: o Mobral, o projeto Rondon... Com minhas honestas porém equivocadas opiniões, passei por alguns vexames em reuniões semi-secretas do Centro Acadêmico. Aliás, também achava um pouco sem sentido que as coisas tivessem que ser meio secretas. Que o grupo que conversava no corredor, de repente mudasse de assunto com a aproximação de estranhos; que fossemos para o Butantã, no meio das árvores e longe de tudo (o que, aliás, era muito gostoso) discutir política estudantil.

Foi só em 1973, com o assassinato do estudante Alexandre Vannuchi Leme, que comecei a perceber a gravidade da ditadura militar. Fomos à missa pelo Vannuchi, na Sé, com muito medo. A USP estava cercada. Tínhamos que sair em pequenos grupos, a pé, para tomar ônibus no largo de Pinheiros. A Sé também estava cercada. Olhávamos de baixo para cima os PMs a cavalo em grupos de dez, quinze, fazendo barreiras que tínhamos que contornar como quem não quer nada. "Não tão depressa que pareça que estamos fugindo, nem tão devagar que pareça provocação". Para mim, recém-chegada e pouquíssimo implicada no que já se constituía há muito tempo como oposição ao regime militar, tudo parecia um pouco irreal, como num filme. Mas a partir daquela missa, daquela primeira manifestação de massas comovida, discreta, depois de tantos anos de repressão, também me abri para os argumentos de meus colegas marxistas; o que se pretendia não era derrubar a ditadura, e sim derrotar o capitalismo.

Daí pra frente, minha história foi parecida com a de outros companheiros de minha geração. Mas quando passei a trabalhar na imprensa nanica, na redação do jornal Movimento, costumava me calar, um pouco sem jeito, quando ouvia meus colegas contarem da luta armada, do exílio ou da clandestinidade, das prisões, das torturas. Gostaria de ter alguma coisa para contar. Sabia que estávamos fazendo, a sério, oposição aos militares. Sabia também que aqueles jornalistas não estavam só fazendo jornalismo: tínhamos um projeto maior para o Brasil. Discutia-se Constituinte, Anistia, Reforma Agrária (e o grupo rachava e rachava a partir de cada pequena divergência; como a esquerda se fracionava com facilidade quando não tinha nenhum compromisso com o poder!). Mas uma palavra já não se falava mais: Revolução. Sei que este era o objetivo implícito de todos os grupos e subgrupos que fechavam questão a respeito de cada detalhe discutido – mas já não éramos, explicitamente, um grupo de revolucionários.

Assim foi que eu, esquerdista tardia, perdi para sempre – hoje digo com certa certeza: para sempre – o bonde da Revolução. O momento histórico em que ainda fazia sentido pensar em Revolução. O sonho da Revolução. A fé numa utopia que só se conquistaria através de uma revolução. Tudo aquilo que parecia não apenas possível mas quase iminente na década de 60, e ainda uma bandeira pela qual valia a pena morrer nos 70, passou longe de mim. Chorei vendo a vida do Che, pela revolução cubana que começou popular, vitoriosa, nova em folha, e depois, para se manter, teve que expulsar tantos heróis – a começar do próprio Che Guevara. Chorei pelas derrotas no Zaire e na Bolívia porque elas me parecem hoje mais reais, mais verdadeiras do que o projeto da revolução que não houve naqueles países.

Ainda boto fé em soluções socialistas, ou menos ainda, socializantes, a ser inventadas pela sociedade organizada em um contexto de governos progressistas, que favoreçam e incentivem todas as iniciativas autônomas, cooperativadas, distribuidoras de renda e de bens simbólicos. Mas não consigo acreditar sinceramente na idéia de Revolução, e com isso fico com o sentimento de ter perdido uma festa que nunca mais vai se repetir. Me desculpem a leviandade de chamar de "festa" o que para muitos foi luta, ou tragédia. Mas vista assim de longe, no tempo e no espaço, o que fica da idéia de revolução, como escreveu Baudelaire sobre 1848 na França, são imagens da embriaguez. "Gosto da vingança. Prazer natural da demolição. Embriaguez literária: lembranças de leituras"...

Quanto à "história do que poderia ter sido""—talvez esta ainda esteja por escrever, talvez ainda caiba à esquerda do final do milênio escrevê-la. Mas atenção! – ao ser (re)escrita, já há de ser uma outra história.


*Maria Rita Kehl é psicanalista, membro do Conselho de Redação de TD. Tags:  




 

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