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Livros: Nem bandidos, nem heróis, nem vítimas

Teoria e Debate nº 36 - outubro/novembro/dezembro de 1997

publicado em 13/05/2006

Tiradentes, um presídio da ditadura: memórias de presos políticos.
Alípio Freire, Izaías Almada, J. A. de Granville Ponce (Orgs.)
Editora Scipione, 1997. 518 páginas.


por Valdizar Pinto do Carmo*

O ambiente aterrador das prisões é um dos temas recorrentes na criação literária. Remontando às baladas do poeta-bandoleiro François Villon, no crepúsculo da Idade Média francesa, assume dimensão trágica em Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoievski, que acentua o infortúnio dos prisioneiros "no tinido das correntes, o odor infecto, a atmosfera pesada, as cabeças raspadas, os rostos marcados a ferro em brasa, as roupas esfarrapadas".

No Brasil, o tema é trazido por Graciliano Ramos, com suas Memórias do Cárcere, recuperando a própria experiência do autor numa prisão do Estado Novo de Vargas. Antonio Candido, que se debruçou sobre a narrativa de Graciliano, em Confissão e ficção, assina também o prefácio de Tiradentes, um presídio da ditadura, introduzindo o leitor no cenário descrito por ex-prisioneiros do regime militar, instaurado no país em 1964. Seu título – O Purgatório –, que poderia ser uma alusão à Divina Comédia, de Dante, vem do testemunho de um dos memorialistas: "O Tiradentes era um purgatório, este limbo situado entre o inferno e o paraíso".

O livro-documento reúne um conjunto de 35 depoimentos, que revelam, segundo os organizadores – os jornalistas e ex-presos políticos Alípio Freire, Izaías Almada e J. A. Granville Ponce – a história, de "homens e mulheres que lutaram nos finais dos anos 60, início dos 70, contra a direita civil e militar que governou o Brasil".

Embora os tentáculos da repressão tenham se estendido por todo o país, o presídio Tiradentes tornou-se emblemático, por abrigar, na época, o maior contingente de presos políticos do Brasil, pertencentes às mais diversas organizações clandestinas que resistiram ao regime militar.

Na particularidade de cada relato, encontramos marcas comuns da experiência compartilhada. Entre elas ressalta o alívio da ida para o presídio, após o terror dos "dias de pau" passados na Oban (Operação Bandeirantes, posteriormente DOI-Codi) e no Deops (Departamento de Ordem Política e Social). Os depoimentos revelam que, embora no Tiradentes ninguém estivesse livre de voltar à cadeira-do-dragão, ao pau-de-arara, aos afogamentos e fuzilamentos simulados, o presídio – ex-mercado de escravos – surge no imaginário do preso político como uma "calmaria, quase uma bonança" (Luís Raul). Mas, ao mesmo tempo, "franja do inferno" – para lembrar a expressão de Antonio Candido em referência a Memórias do Cárcere – lugar onde se testemunhava, conforme vários relatos, a violência brutal contra os presos comuns, "os corrós", muitos dos quais se tornaram vítimas indefesas da ação exterminadora do Esquadrão da Morte.

O convívio com os companheiros de cela constitui o eixo da maioria das narrativas, que relembram o peso das divergências políticas e o esforço conjunto para "transformar a convivência num fardo mais leve" (Izaías). Limitada a esse espaço exíguo, a militância política se fazia nas infindáveis discussões do coletivo sobre as etapas da revolução brasileira, sobre a teoria do foco de Guevara, sobre a universalidade da Revolução Cultural Chinesa... A "cela fervilhava", nas palavras de Aytan.

Como num caleidoscópio, os depoimentos vão apresentando os variados aspectos da vida quotidiana dos presos, em que se mescla a melancolia após as visitas, o empenho em manter as celas habitáveis, o trabalho artesanal, as artimanhas nas partidas de bridge, as peladas do futebol entre quatro paredes, as atividades culturais coletivas, como o curso de História do Brasil de Jacob Gorender, possibilitado pela cumplicidade do carcereiro Ditinho, que abria as celas nos dia de seu plantão.

O fluxo da memória vai buscar, na sucessão monótona dos dias, as preocupações existenciais, a angustiante separação do companheiro ou da companheira, sobretudo na ilusória privacidade e solidão do "mocó" – o beliche ocultado por toalhas e lençóis.

Os relatos nos dão conta de que os "meninos" ficavam nos pavilhões I e II e as "meninas" habitavam uma outra ala, conhecida como a "Torre das Donzelas". O pesado portão de ferro, que separava os "territórios" masculino e feminino, não impediu o encontro entre Rita e Alípio, Nadja e Vicente Roig, que se conheceram, se apaixonaram na prisão, iniciando um relacionamento afetivo que perdura até hoje.

Nos depoimentos femininos, a memória também recupera, do passado, a reflexão política e o sentido mais profundo da solidariedade, entretecida, no dizer de Rose Nogueira, nos pontos de intermináveis rendas. "Tecíamos tal qual Penélope", misturando "marxismo, estruturalismo, macroeconomia, imperialismo, destino da burguesia nacional, identificação do inimigo principal, foquismo, um, dois, três Vietnãs. Tudo se misturava aos pontos na agulha".

Reconstrução do passado pela memória, o livro não pode ser confundido com um "baile da saudade", como ironizou Paulo Moreira Leite, resenhista de Veja, apreciação paradoxal para quem outrora exibia uma retórica radical, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Ao contrário, como sublinha Antonio Candido, Tiradentes é "um livro de fatos". Na palavra dos organizadores, nele não há "nem bandidos, nem heróis, nem vítimas" e o objetivo da obra foi "dar a voz aos atores de um período histórico que ainda está por ser estudado".

Tiradentes, Um Presídio da Ditadura recupera os sonhos e os pesadelos de uma geração, os fragmentos da esperança na ação transformadora coletiva, contrariando teimosamente os modelos individualistas deste final de século. Constitui, ademais, um documento histórico valioso e indispensável para os pesquisadores que não se renderam "ao fim da história."


*Valdizar Pinto do Carmo é jornalista e ex-preso político do Presídio Tiradentes. Tags:  




 

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