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MEMÓRIA: Chico Mendes

Teoria e Debate nº 80 - janeiro/fevereiro 2009

publicado em 25/06/2009

Há vinte anos, em 22 de dezembro de 1988, o seringueiro, sindicalista, militante político e primeiro ambientalista brasileiro reconhecido internacionalmente foi covardemente assassinado. Vítima da situação de violência e injustiça que tanto denunciou e contra a qual sempre lutou

por Gomercindo Rodrigues*

Nascido e criado nos seringais do Acre, Chico Mendes foi um precursor dos debates ambientais, um militante em favor da ecologia antes mesmo de compreen der os conceitos que estão por trás do termo. Antes da militância política, o ambientalista era mais um trabalhador da floresta, mas aos 15 anos já era exímio seringueiro. Teve sua iniciação às letras e formação política lá mesmo, nos seringais. Nos idos anos 1960, Chico Mendes passava os fins de semana, para não atrapalhar o ritmo da produção, sendo alfabetizado por Euclides Távora, um ex-militante da Coluna Prestes. O professor utilizava para as aulas de leitura notícias vinculadas aos problemas sociais e políticos.

Segundo contava Chico Mendes, em suas longas conversas com Euclides, depois de algum tempo em que já aprendera a ler, seu mestre lhe mostrava a grande exploração à qual eram submetidos os seringueiros. A isso era muito simpático o pai de Chico Mendes, que foi um dos primeiros a reclamar da exploração dos patrões, mas sem uma noção maior de organização.

Chico reconheceu que somente muito depois do desaparecimento de seu professor ele passou a entender que era preciso lutar para organizar os seringueiros contra a exploração. Foi quando começou a participar das primeiras discussões para a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Brasileia, quando viu problematizada, na prática, a lição que lhe dera dez anos antes o militante comunista perdido nas selvas amazônicas. Antes era tudo muito teórico.

Pelos seringais adentro, Chico Mendes coordenava reuniões, discursava em comícios, falando sempre de forma clara e objetiva, linguajar próprio dos seringueiros. Quando ele falava todos entendiam. Era um homem simples e ao mesmo tempo uma liderança, na acepção da palavra.

Brincalhão na juventude, leitor de histórias de cordel para grupos de amigos, carinhoso com os filhos e solidário com os companheiros, para ele o importante era a luta, a organização, o sindicato, o partido, os trabalhadores – e ele se colocava sempre como mais um. Foi por isso que, ao receber dois prêmios internacionais, em seus discursos disse que recebia tais homenagens em nome dos seringueiros e como representante deles. Os prêmios eram de seus companheiros, não dele.

O começo da militância

Após o fim de seu primeiro casamento, de onde a única boa recordação era a filha Ângela, Chico Mendes saiu um pouco mais do seringal e se dedicou a passar os conhecimentos de leitura e escrita que tinha a seus companheiros.

No trabalho como monitor do Mobral, teve maior contato com o nível de exploração dos seringueiros, que antes só conhecia da própria experiência, ao mesmo tempo em que começou a presenciar a violência dos fazendeiros “paulistas” que chegavam à região e usavam de todos os meios para expulsar os seringueiros de suas posses. Afirmavam que haviam comprado os seringais de seus antigos proprietários e tinham “documentos” de tais transações.

Nessa época começaram a surgir as primeiras comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. Chico, como tinha “um pouco mais de leitura”, nas reuniões, quando estava presente, ajudava na leitura dos textos bíblicos.

Em 1975, ouviu falar que haveria um curso de formação sindical em Brasileia, e foi para lá, participando da fundação do Sindicato de Trabalhadores Rurais na cidade, o primeiro a ganhar repercussão e crescer rapidamente no Acre. Chico foi secretário na primeira diretoria, cargo que ocupou até 1977, quando se deslocou para Xapuri para ajudar na fundação do STR da cidade.

Os primeiros tempos de Chico Mendes como liderança sindical coincidem com os primeiros “empates”1 e com o enfrentamento cada vez mais acirrado com os fazendeiros. Essa situação de permanente convivência com o conflito ajudou-o a fortalecer seu caráter de líder sindical coerente, duro quando necessário, mas ao mesmo tempo capaz de negociar em pé de igualdade com seus inimigos, característica, aliás, que nem seus maiores adversários políticos negam.

Foi do trabalho como monitor do Mobral e liderança sindical que surgiu a possibilidade de candidatar-se a vereador pelo MDB2.

Palco de discussões atuais Eleito vereador no município de Xapuri, Chico Mendes, desde o início de seu mandato, tenta fazer com que sua ação como parlamentar mirim sirva como ponto de denúncia para a situação de violência e exploração que enfrentavam os seringueiros. Por esse modo de atuar fica, no início, marginalizado inclusive dentro de seu partido, sendo ameaçado de cassação de mandato e forçado a “maneirar” mais sua atuação. Ainda em 1977, pelo seu trabalho, surgem as primeiras ameaças de morte contra Chico Mendes.

Na primeira sessão do ano legislativo de 1979, conseguiu eleger-se vice-presidente do Parlamento municipal. O presidente eleito pertencia à Arena3 e, no dia seguinte, tendo em vista a destituição do prefeito nomeado, assumiu interinamente o Executivo municipal, permanecendo como prefeito em exercício até o início do ano seguinte, quando foi empossado o novo prefeito nomeado.

Assim, Chico Mendes assumiu a presidência do Legislativo municipal no dia 2 de março de 1979, permanecendo no cargo até 29 de novembro do mesmo ano, quando foi forçado a renunciar para não perder o mandato.

No dia 7 de abril de 1979, fez um duro pronunciamento, em que “enfatizou que os políticos acreanos parece que esqueceram seus compromissos assumidos para com o povo às vésperas da última eleição4. Tinham eles prometido lutar por uma melhor estrutura agrária em favor do homem do campo e até agora tudo neutralizado, nenhuma esperança para o seringueiro e que se nota é as constantes injustiças aos seringueiros. Continuando, terceu5 críticas aos órgãos de competência a zelar pela referida causa. Senhores não devemos chorar mais tarde os atos de violência por causa da omissão das competentes autoridades que não agiram em tempo em proveito da justiça” (Transcrito com a redação conforme constante na Ata da 8ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Xapuri).

O próprio Chico Mendes, nove anos mais tarde, viria a ser uma das vítimas dos “atos de violência” sobre os quais já alertava as autoridades muito tempo antes de ocorrerem. Importante ressaltar que a omissão das autoridades continuou por anos a fio, somente vindo a encontrar eco as palavras de Chico quando ele foi a vítima.

Como presidente em exercício da Câmara Municipal, além dos pronunciamentos que fazia desde o primeiro mês de mandato como vereador, no dia 17 de novembro promoveu, no Parlamento municipal, uma grande reunião com seringueiros e trabalhadores rurais para discutir os desmatamentos, a violência e a superexploração dos seringueiros.

A reunião contou com a participação de outros vereadores, e um deles, João Simão, teria sido vaiado. Magoado com a situação, embora fossem ambos do mesmo partido, Simão entrou com representação para cassação do mandato de Chico Mendes.

Na sessão do dia 23 de novembro de 1979, Chico Mendes teve contra si, além da representação de Simão, o pronunciamento contrário de praticamente todos os vereadores que o criticavam por ter cedido a Câmara para a reunião com seringueiros. Sob pressão e após muita negociação, Chico Mendes apresentou seu pedido de renúncia ao cargo de vice-presidente da Câmara, devidamente acatado. Com isso, a representação foi arquivada.

É interessante registrar que, embora forçado a renunciar à vice-presidência da Câmara Municipal, quando seu mandato na mesa iria até o início de 1981, na eleição seguinte para a mesa diretora – biênio janeiro de 1981/janeiro de 1983 –, Chico Mendes foi novamente eleito, dessa vez para o cargo de secretário, contando com o apoio total da bancada do PDS6 e sem os votos de seus dois ex-companheiros de partido, no caso Wagner Bacelar e João Simão.

Com a pressão gerada por seu trabalho, Chico Mendes enfrentou os primeiros e duros interrogatórios realizados pela Polícia Federal, coordenados, já nessa época, por um personagem que mais tarde reapareceria de forma trágica na vida – e morte – de Chico Mendes: o delegado Mauro Spósito. Nunca gostou de falar sobre os “interrogatórios” que respondera secretamente nas dependências do Hotel Xapuri, que era de propriedade do município. Segundo ele, foram horas a fio de “interrogatórios” extenuantes e violentos.

Chico Mendes continuou como vereador e, como tal, sempre denunciou as violências contra os seringueiros e reforçou a atuação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri.

Nesse período foi fundamental a assessoria prestada por alguns padres progressistas da Igreja Católica que foram vigários na cidade naquela época: os padres Destro, Cláudio e Luciano.

À frente de seu tempo

Como vereador, Chico Mendes foi, sem nenhuma dúvida, um político muito à frente de seu tempo. Já em 1977, em plena ditadura, quando começava a “distensão”, fez vários discursos apoiando a atuação da Contag e a criação do próprio Sindicato dos Trabalhadores de Xapuri. Enfrentou bons debates com o vereador Eurico Filho, da Arena, sobre a questão da atuação dos religiosos no apoio à fundação do STR na cidade.

Também durante todo o seu mandato fez inúmeros pronunciamentos denunciando a situação humilhante e o abandono dos seringueiros, bem como as expulsões das posses, inclusive com a atuação da polícia, além de falar contra a devastação da Amazônia, cobrando uma política de preservação da floresta.

Falar em preservação da Amazônia no final dos anos 1970 era algo bastante novo, especialmente quando isso ocorria não no debate de estudantes universitários dos grandes centros urbanos, mas em uma pequena cidade situada dentro da própria floresta.

Em várias oportunidades, Chico Mendes também usou a tribuna para denunciar os desmatamentos, a violência contra seringueiros, a “violação dos direitos humanos” praticada por policiais militares etc.

No dia 2 de maio de 1980, Chico Mendes anunciou seu desligamento do partido e sua filiação ao Partido dos Trabalhadores, sendo o primeiro vereador acreano filiado ao PT.

Os fragmentos de seus discursos transcritos – parece que os pronunciamentos integrais não podem ser recuperados – dariam um belíssimo livro do próprio Chico, e tais trechos mostram não só que era coerente com suas posições, que as defendia com firmeza, mas sobretudo que pôs em discussão temas que ainda “engatinhavam” em nível nacional, como a questão da devastação da floresta amazônica.

Chico assumiu de forma decidida o mandato de vereador para colocá-lo a serviço dos trabalhadores rurais e, embora tenha feito indicações, criticado problemas administrativos municipais, a condição das ruas, da energia elétrica, do abastecimento da água de Xapuri, centrou forças para divulgar a real situação dos seringueiros. Denunciou as violências, sofreu ameaças por sua atuação, mas, como repetiu várias vezes, “continuou sempre na luta” em defesa dos mais humildes, dos trabalhadores rurais, dos seringueiros...

O dia-a-dia de um líder

Depois de sua morte, Chico Mendes passou muito mais a ser um “mártir ecologista”, no sentido quase pejorativo e despolitizado da expressão, do que um “militante político”. Essa confusão precisa ser desfeit,a até como um reparo à memória dele, que fez do seu dia-a-dia uma permanente militância política.

Quando de sua primeira participação como candidato a vereador, Chico procurou o único partido que, naquela época, fazia oposição à ditadura militar.

Em 1979, Chico Mendes já podia ser chamado de um “militante de esquerda”, pois sua atuação como vereador e liderança dos seringueiros era frontalmente contra os interesses dos grandes fazendeiros e dos políticos tradicionais da época – a prioridade eram os interesses dos trabalhadores.

Chico adere ao PT desde o princípio. Durante todos os seus anos de militância política, atuou não só como filiado a um partido, mas também como dirigente sindical. Foi fundador e primeiro-secretário do STR de Brasileia, depois fundador da Central Única dos Trabalhadores, de cuja direção nacional era suplente quando foi assassinado, presidente do STR de Xapuri e fundador do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS).

Sua militância expressou-se não poucas vezes nos debates com os próprios trabalhadores rurais, nas assembleias do STR de Xapuri, nas reuniões que precediam aos “empates”, falando sempre de um projeto de sociedade, interpretando a luta de classes a partir da realidade regional. Por isso era respeitado local e nacionalmente.

Seu engajamento rendeu-lhe processo com base na Lei de Segurança Nacional, junto com Lula e outros sindicalistas que estavam fundando o Partido dos Trabalhadores. Foi absolvido duas vezes, em primeira e segunda instância.

Dois meses antes de ser assassinado, fez uma afirmação que colocava sua posição naquele momento, quando se tornara um “ecologista” conhecido, muito mais do que um dirigente sindical. A palavra “ecologia” não fazia parte do dicionário dos seringueiros. Era algo estranho. No entanto, a luta deles era, e continua sendo, uma luta em defesa da Amazônia, pois isso era defender o pão de cada dia. Defender a floresta, para os seringueiros, é muito mais do que defender o “verde” porque é belo, ou o ar que se respira, é defender o local onde eles sobrevivem e de onde retiram seu sustento.

A origem da palavra “ecologia” vem do grego “oikos”, que significa “casa”, ou seja, seria o “estudo da nossa casa”, numa definição etimológica. Assim, os seringueiros, embora não soubessem o significado da palavra, eram “ecologistas” radicais, defendiam, como defendem até hoje, suas casas, nestas incluída a floresta. É a ecologia levada à radicalidade.

A forma de luta dos seringueiros, desde a participação de Wilson Pinheiro, de Chico Mendes e de outras lideranças que não estão vivas para contar a história, traz, sim, embutida uma proposta de sociedade nova, em que não haja exploração nem violência. Esse conceito, Chico Mendes verbalizou inúmeras vezes.

O enfrentamento com os fazendeiros era entendido como um enfrentamento de classes, no qual o capital era representado pelos ricos fazendeiros, pelos grandes grupos econômicos, e o trabalho tinha como seus representantes os posseiros, os seringueiros, aqueles que tinham, e têm, somente a sua força de trabalho.

Pode parecer muito distante da realidade dos seringueiros, e efetivamente o era. Eram conceitos que, de forma abstrata, pareciam difíceis de ser absorvidos, mas traduzidos nos enfrentamentos do dia-a-dia, dos “empates”, da luta para que cada posseiro continuasse em sua colocação, ficava fácil de ser entendido... E isso Chico Mendes sabia fazer como ninguém.

Afinal de contas, não era difícil discutir com os seringueiros o porquê da violência, de a Justiça estar sempre ao lado dos poderosos, a ponto de pôr policiais militares para “proteger” os desmatamentos, além de, sempre, expulsar o posseiro e dar o direito ao “proprietário”, mesmo que, muitas vezes, não se fizesse uma análise mais detalhada da “documentação” da terra.

Chico Mendes não era um “político de ocasião”. Era um militante político 24 horas por dia, sete dias por semana e mostrava isso onde quer que estivesse, fosse numa reunião com seringueiros dentro do seringal, fosse nas assembleias gerais do STR de Xapuri e, depois, nos encontros regionais de seringueiros, fosse nas palestras que proferiu.

“...sabia que chegaria, a morte sem avisar...”

Uma canção nicaraguense que Chico Mendes conhecia, pois foi um dos admiradores da revolução sandinista, diz, ao relatar a morte de um dos seus dirigentes, “...sabia que chegaria, a morte sem avisar...”.

Com Chico Mendes não era diferente. Desde 1977 ele vinha recebendo constantes ameaças de morte, por parte dos fazendeiros, principais “prejudicados” pelo trabalho de organização dos seringueiros na região de Brasileia e Xapuri, que tinha por base a realização dos “empates” contra as derrubadas.

Em 21 de julho de 1980, pistoleiros a soldo assassinaram o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, Wilson Pinheiro, a primeira grande liderança sindical da região, com quem Chico Mendes trabalhava desde 1975. De acordo com informações posteriores, nesse mesmo dia deveria ser morto Chico Mendes, que não foi encontrado pelos assassinos.

Após o enterro de Wilson Pinheiro em Brasileia e, principalmente, depois da morte do testa-de-ferro de fazendeiros na região, “Nilão”, Chico teve de passar cerca de dois meses na semiclandestinidade, dormindo cada dia em um lugar, sendo permanentemente seguido por pistoleiros que aguardavam uma chance de matá-lo. Foram dias muito tensos, segundo o relato do próprio Chico.

Todos os anos as ameaças se repetiam, principalmente na época das derrubadas, em função da resistência organizada dos trabalhadores.

Esteve muito próximo de ser assassinado por seis vezes, e conseguiu escapar por acaso, mudando trajetos de deslocamentos ou simplesmente adiando, por outros motivos, viagens já marcadas. Outras vezes, avisado de que havia emboscada armada, Chico mudava a direção.

Num registro feito numa agenda de 1987, Chico Mendes anotou no quadro do dia 10 de agosto: “2 horas da madrugada, ameaças, tentativa pelo girau da cosinha (sic) do Sindicato”. Nessa madrugada em que, por sorte, Chico não estava sozinho na sede do STR em Xapuri, alguém tentou invadir a entidade pulando pela janela do “girau” (local onde se lavam utensílios de cozinha). Só não conseguiu porque a madeira, apodrecida, cedeu sob o peso do pistoleiro, que fugiu, deixando as marcas de seus pés na lama existente embaixo da janela.

Poucas semanas antes de ser assassinado, Chico Mendes deixou um bilhete para uma amiga no Centro dos Trabalhadores da Amazônia, em Rio Branco, dizendo que fora seguido o dia todo por pistoleiros.

Sabia que estava “marcado para morrer” e denunciou tal situação durante todo o ano de 1988 – foram enviadas não poucas correspondências a autoridades do Acre e federais. A imprensa e os políticos acreanos encaravam tais registros como de alguém que queria ficar em evidência na mídia.

A cada vez que proferia uma palestra, durante o ano de 1988, ao viajar de volta para o Acre sempre se despedia dos amigos como se fosse a última vez que o veriam. Isso ficou muito patente nas palestras proferidas em Piracicaba, no estado de São Paulo (7 de dezembro), e na cidade do Rio de Janeiro (9 de dezembro), quando, ao falar das ameaças de morte, frisou que talvez estivesse voltando para sua terra para ser morto.

Como na música em homenagem ao revolucionário sandinista “comandante Gaspar”: “...sabia que chegaria, a morte sem avisar, porém a morte se enfrenta quando há um povo por trás...”

De Xapuri para o mundo

A partir da realização do I Encontro Nacional de Seringueiros, de 10 a 17 de outubro de 1985, em Brasília, convocado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, a luta dos seringueiros saiu de dentro da Amazônia para ganhar destaque nacional e, principalmente, internacional, em função da proposta de criação das Reservas Extrativistas.

O Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), recém-fundado, passou a receber convites para explicar a proposta das Reservas Extrativistas em várias partes do mundo.

O então presidente, Jaime Araújo, um seringueiro-poeta de Novo Aripuanã, no estado do Amazonas, foi convidado a ser professor visitante por vários meses na Universidade de Brasília, enquanto muita gente vinha de fora do país para conhecer in loco o trabalho de defesa da floresta realizado pelos seringueiros.

Em função dos riscos para o meio ambiente trazidos pelo asfaltamento da BR-364, trecho Porto Velho (RO) a Rio Branco (AC), já em virtude da devastação causada pelo asfaltamento da mesma rodovia no trecho Cuiabá–Porto Velho, os seringueiros conseguem “cavar”, com a ajuda de entidades ambientalistas internacionais, um espaço para participar de discussões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), responsável pelo financiamento de um terço do custo do asfaltamento.

Chico Mendes, representando o CNS, foi aos Estados Unidos participar de uma assembleia anual do BID. Nesse encontro, conversou com representantes de vários governos, levado sempre por representantes de entidades ambientalistas. Isso depois de ter sido credenciado como “jornalista” pela Central TV, de Londres, para entrar no encontro, pois não tinha como fazê-lo como representante dos seringueiros.

A partir desse encontro no BID e em função de uma visita a Xapuri de Robert Lamb, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Chico Mendes foi indicado para receber o prêmio Global 500, fazendo parte do primeiro rol de pessoas do mundo todo que se destacaram na luta pelo meio ambiente. O único brasileiro entre cerca de noventa nomes.

O governo brasileiro, em protesto pela não concessão do Global 500 a autoridades governamentais, fez questão de ignorar a premiação e foi um dos poucos países a não se fazer presente quando da entrega do certificado, no dia 6 de julho de 1987, em Londres. A premiação, elogiada fora do Brasil, quase não teve destaque em nosso país. Chico Mendes, em seu curtíssimo discurso, dedicou o prêmio a todos os seringueiros da Amazônia.

Em sua primeira viagem aos Estados Unidos, em março de 1987, Chico manteve contatos com assessores da Comissão de Dotações Orçamentárias do Senado norte-americano e aproveitou para denunciar que os bancos multilaterais estavam financiando a devastação na Amazônia, citando como exemplo o caso de Rondônia e do asfaltamento da BR-364.

Em 21 de setembro de 1987, quando do recebimento de seu segundo prêmio internacional, concedido pela Sociedade para um Mundo Melhor, Chico voltou a dedicá-lo a todos os seringueiros da Amazônia e à Aliança dos Povos da Floresta, que já começara a costurar com os índios da União das Nações Indígenas.

Aproveitando essa segunda estada, Chico Mendes faz novos contatos, um deles com o então senador Robert Karsten, presidente da Comissão de Dotações Orçamentárias do Congresso norte-americano, fazendo pessoalmente as denúncias já encaminhadas em outra ocasião. No retorno para o Brasil, foi torpedeado pelos políticos acreanos, que o acusaram de “falso líder”, de “estar fazendo o jogo dos americanos”, de “prejudicar o desenvolvimento do Acre”, entre outras coisas mais.

Um dos deputados, como forma de pressionar Chico Mendes, convoca-o a comparecer à Assembleia Legislativa para “esclarecer” os motivos de suas viagens.

Chico Mendes, com a mesma tranquilidade com que dirigia as assembleias gerais do sindicato, não só dá uma aula sobre a realidade acreana como prova à opinião pública que os deputados estavam totalmente desinformados sobre documentos da maior importância para o estado do Acre, como o acordo firmado entre o governo brasileiro e o BID para o asfaltamento da BR-364, trecho Porto Velho–Rio Branco.

Mostrou aos deputados a cópia do convênio e disse que lá estava prevista uma verba de US$ 10 milhões para ser destinada às populações tradicionais, visando à preservação ambiental e dessas populações, para que não ocorresse no Acre o que ocorrera em Rondônia. Os deputados não sabiam nem que existia o acordo, menos ainda que existisse qualquer dinheiro para ser investido em ações no estado do Acre. Os parlamentares foram buscar lã e saíram tosquiados...

Toda a divulgação dada a Chico Mendes, principalmente os prêmios e as viagens internacionais, gerou entre os políticos tradicionais locais um grande mal-estar e a preocupação de que um seringueiro pudesse, quem sabe já nas eleições de 1990, disputar em pé de igualdade o governo do estado do Acre com outros políticos representantes dos fazendeiros e de grandes grupos econômicos.

É bem verdade que até sua morte Chico Mendes foi muito mais conhecido no exterior que no Brasil. Em 1987, um casal de jornalistas ingleses em visita ao Brasil contou que, na passagem pelo Rio de Janeiro, buscou contato com a redação do Jornal do Brasil para obter informações mais detalhadas sobre a luta dos seringueiros na Amazônia e a proposta das Reservas Extrativistas. A resposta dos jornalistas foi que nunca tinham ouvido falar disso.

A visibilidade nacional de Chico Mendes e do movimento dos seringueiros começou praticamente em 1988, graças, sobretudo, ao trabalho do Comitê de Apoio aos Povos da Floresta, criado logo após a passagem de Chico pelo Rio de Janeiro em setembro de 1987.

Apesar de toda a divulgação, do conhecimento e dos prêmios internacionais, bem como do fato de ter proferido dezenas de palestras por todo o Brasil, Chico Mendes nunca perdeu a humildade e viveu, sempre, em condições de vida muito difíceis.

A casa humilde, de madeira, onde morou até o dia em que foi assassinado, foi comprada em duas prestações, com a ajuda de amigos do centro-sul do Brasil, e paga, a segunda prestação, um mês antes de sua morte, pois em outras oportunidades gastou o dinheiro para quitar a casa com ações do STR de Xapuri.

Todo o apoio, em dinheiro, que recebia para o próprio trabalho Chico Mendes revertia diretamente para o sindicato e para suas ações, levando, assim, uma vida extremamente simples, quase miserável.

Comunicar por escrito, uma prática

Embora não tivesse escolaridade regular, Chico Mendes gostava muito de escrever e tentava, sempre, fazer comunicados por escrito, fossem para os delegados sindicais nos seringais, fossem para autoridades. Antes de ser assassinado, escreveu vários artigos assinados que foram publicados especialmente pelos jornais Folha do Acre e A Gazeta. Escreveu inúmeras correspondências para autoridades (governador, superintendente da Polícia Federal, juiz da Comarca de Xapuri, secretário de Segurança Pública, entre outros) avisando que estava marcado para morrer, que havia risco concreto de ser assassinado. Não foi levado a sério...

Mas não era somente para autoridades que Chico Mendes escrevia. Também mandava mensagens por escrito para os delegados sindicais, escreveu para entidades não-governamentais pedindo ajuda para o movimento dos seringueiros ou denunciando as ameaças de morte. No Ventania, um jornalzinho mimeografado, publicado sem periodicidade definida pelo Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores, escrevia muitos textos, especialmente as “curtas”, pequenas notas muito lidas e comentadas, em que atacava violentamente o então prefeito de Xapuri.

O próprio texto que depois se tornou o “testamento” de Chico Mendes, aquele destinado ao “jovem do futuro”, foi escrito enquanto tentava fazer uma ligação interurbana na noite de 6 de setembro de 1988. Escreveu-o e deixou pregado com fita adesiva sobre o meu telefone. Achei o texto fantástico e o guardei. Cometi apenas um erro: não pedi que ele o assinasse. Foi uma pena, pois tenho o original do texto que não tem sua assinatura, mas sua letra é inconfundível.

O homem da floresta escrevia sempre que podia. Registrava suas reclamações por escrito. Era uma forma de mostrar que não tinha medo de assumir a responsabilidade daquilo que denunciava. Era, também, um ato de cidadania.

*Gomercindo Rodrigues é advogado e membro do Comitê Chico Mendes
**Síntese do capítulo 3 do livro Caminhando na Floresta, de Gomercindo Rodrigues, (Editora UFAC, 2ª edição no prelo). Publicado em inglês pela Editora da Universidade do Texas com o título Walking the Forest with Chico Mendes, com tradução de Linda Rabben.

Notas de rodapé:
1
“Empate” era uma tática de resistência incentivada por Chico Mendes. Um cordão humano era formado com serigueiros, sindicalistas, mulheres e crianças para impedir o corte das árvores.

2 Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único partido de oposição autorizado pela ditadura brasileira a funcionar normalmente, para dar uma “roupagem” de existência de democracia no país.

3 Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido de sustentação do governo ditatorial brasileiro.

4 No ano de 1978 foram realizadas eleições para deputados estaduais, federais e senadores.

5 Sempre que aparecer a palavra “terceu”, na verdade o redator da ata quer dizer “teceu”.

6 Partido Democrático Social (PDS), o sucessor da Arena, com a reforma partidária. Era o partido que dava sustentação aos governadores nomeados e ao governo militar.

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