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Memória: Medo e liberdade

Teoria e Debate nº 35 - julho/agosto/setembro de 1997

publicado em 18/08/2006

Para realizar esta reportagem sobre o movimento estudantil da USP nos anos 70, Teoria & Debate entrevistou cinco importantes lideranças daquela época: duas da Refazendo, duas vinculadas à Liberdade e Luta e uma ligada à Caminhando. Todas elas, hoje já na faixa dos quarenta, são figuras mais ou menos conhecidas em distintos campos de atuação.

Tentamos usar critérios para fazer esta seleção. Estes cinco companheiros faziam parte das três tendências mais importantes do movimento estudantil da USP naqueles anos e seguiram depois trajetórias pessoais distintas. Mas todo critério de escolha tem sempre, nesses casos, uma dose de subjetivismo. Muitos outros poderiam ter sido procurados, pois uma das características do M.E. nos anos 70 era inclusive a tentativa de não personalização do movimento. Pelo peso que tinham, dois deles muito provavelmente teriam sido ouvidos por nós se estivessem vivos: Celso Figueiredo, da Caminhando, e Marcelo Garcia, na época conhecido como Bundão, da Refazendo. A eles, dedicamos esta matéria.

por Ricardo de Azevedo*

Aloízio Mercadante entrou na Faculdade de Economia da USP em 1973. Filho de um militar identificado com o regime (seu pai chegou a ser comandante da Escola Superior de Guerra), começou sua militância política na própria USP. Foi presidente da associação atlética da faculdade e figura de primeira linha na Refazendo. Hoje, aos 43 anos, depois de ter sido deputado federal e candidato a vice-presidente da República na chapa com Lula em 1994, Aloízio é professor de Economia da PUC e da Unicamp e membro da Executiva Nacional do PT.

Alon Feuerwerker começou a militar quando entrou na Faculdade de Medicina da USP, em 1974. Eleito presidente do centro acadêmico em 1978 e vice-presidente da UNE em 79 (na primeira diretoria da UNE reconstruída e por eleição direta), Alon era militante do PCdoB e uma das principais lideranças da Caminhando. Hoje, aos 41 anos, é diretor de desenvolvimento no Universo Online e não tem mais militância político-partidária.

Geraldo Siqueira, o Geraldinho, já militava no movimento secundarista em 1968. Em 1971, quando entrou na Geografia da USP, tinha um irmão no exílio. Presidente do centro acadêmico de sua escola e membro da primeira diretoria do DCE Livre da USP, eleito pela chapa Refazendo, Geraldinho foi uma das mais importantes lideranças do período. Respaldado em sua atuação no M.E., foi eleito deputado estadual pelo MDB em 1978 e reeleito pelo PT em 1982. Atualmente, aos 46 anos, é funcionário do Banco do Brasil. Filiado ao PT, como muitos no entanto deixou de ter uma militância ativa nos últimos anos.

Quando Josimar Melo entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), em 1971, já tinha participado de reuniões de esquerda para discutir O Capital. Diretor do Grêmio da FAU em 1972, Josimar era figura de proa da Liberdade e Luta, a Libelu. Quando esta tendência ganhou as eleições para o DCE Livre da USP em 1978, ele fez parte de sua diretoria e em 1979 foi candidato a presidente da UNE. Aos 43 anos, ele é hoje um bem-sucedido jornalista especializado em gastronomia, que também não tem mais militância político-partidária, embora siga sendo filiado ao PT e admirador de Trotski.

Da mesma forma que Geraldinho, Júlio Turra, o Julinho da Libelu, desde 1968 participava do movimento secundarista. Ingressou no curso de Ciências Sociais da USP em 1973. Já no segundo semestre deste ano era militante da Organização Comunista Primeiro de Maio. Em 1974, foi eleito membro da diretoria do centro acadêmico de sua escola e era também uma das mais importantes lideranças da Liberdade e Luta. Aos 44 anos, Julinho é hoje membro da Executiva Nacional da CUT, militante ativo do PT e da Quarta Internacional, corrente O Trabalho, no Brasil.

Reminiscências
Quando se fala em atuação política, imediatamente vem à tona a questão dos recursos: humanos, materiais, financeiros. Imprescindíveis sem dúvida para uma atuação eficiente. Muitos no entanto têm dificuldade em entender que nem sempre foi assim e que se hoje podemos ter acesso à TV, por exemplo, isso faz parte das conquistas democráticas e por elas muito se lutou no Brasil.

Na década de 70, debaixo do regime militar, eram bem outras as condições de militância. Militar na oposição significava enfrentar o risco de, a qualquer momento, ser preso, torturado, até mesmo assassinado, como aconteceu com tantos. Aloízio Mercadante lembra que "as normas de segurança tinham que ser absolutamente rígidas. Em qualquer reunião tinha um litro de álcool no banheiro e um responsável para botar fogo em todas as anotações. Era só tocar a campainha e essa pessoa ia lá queimar tudo e jogar pela privada." Geraldinho se recorda do clima que envolveu a missa pela morte de Alexandre Vannuchi, celebrada na Catedral da Sé: "Havia metralhadora de tripé no centro da praça apontada para a escadaria da catedral. Dentro da igreja, havia um cameraman da TV Gazeta filmando tudo para a Oban. Ele ia de fila em fila e dava um close nas pessoas. De repente, durante a missa, carros de polícia começaram a dar a volta em torno da catedral com a sirene ligada. Era um verdadeiro clima de pavor!" E Júlio Turra conta que, na invasão da PUC, "quando começou a confusão, com a tropa de choque entrando, bombas de gás lacrimogêneo, eu, o Josimar e uma moça chamada Anne Marie saímos correndo pelos fundos da PUC, entramos numa vilinha, pulamos o muro, subimos em uma casa e entramos na caixa d'água. Já de madrugada descemos e entramos em uma casa. As pessoas foram solidárias, nos tranqüilizaram e até deram cafezinho. No dia seguinte de manhã, soube que todo mundo tinha ido em cana..."

Nas primeiras eleições para o DCE, as chapas não apresentavam os nomes de seus candidatos. Em parte, isso era devido a uma concepção política, de buscar não destacar nomes e sim idéias, mas em grande medida esta atitude era motivada pela necessidade de preservar as lideranças. Os estudantes votavam nas chapas sem saber quem iria fazer parte da diretoria e só depois de eleita a chapa vencedora apresentava seus componentes. Formalmente, não havia presidente. Era um colegiado de diretores.

Mas se a tensão e o medo faziam parte do cotidiano, a USP também era, na imagem do Geraldinho, um pouco "a aldeia gaulesa" do Asterix. Além do encaminhamento das lutas, lá tudo acontecia: palestras, ciclos de cinema, shows de música, grupos de teatro, festas juninas. Josimar explica, com certo tom crítico: "A gente precisava juntar gente, então fazia um show com um cantor que cantava música engajada e juntava as pessoas. Com o tempo, as coisas começaram a ir para o seu devido lugar, ou seja, política é política, cultura é cultura." O fato é que músicos como Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, João Bosco e muitos outros se apresentavam de graça na USP para cantar com uma infra-estrutura absolutamente precária. Mercadante lembra que, quando foram convidar a Mercedes Sosa, que estava dando uma temporada em São Paulo, ela respondeu: "Yo no puedo cantar para los obreros ni para los campesinos; al menos voy a cantar para los estudiantes de São Paulo". Na aldeia gaulesa da USP, os artistas que queriam manifestar seu repúdio à ditadura o faziam, contribuindo dessa forma para a reorganização do movimento estudantil. O simples fato de duas das principais tendências do movimento estudantil se chamarem Refazendo e Caminhando já mostra a importância que a questão cultural tinha na época. Porém, Alon faz um reparo: "A questão cultural teve uma influência. No entanto, a maior influência cultural foi do marxismo".

Ainda que não estivesse presente em nenhuma carta-programa, a questão comportamental também tinha sua importância. Até mesmo pelo clima de repressão cultural e artística do momento, cada tendência se comportava mais ou menos como uma tribo, no dizer de Julinho. Congregando cada uma delas centenas de adeptos, formavam um círculo protetor onde as pessoas podiam "respirar" no meio de tanta tensão. Famosas eram também as festas e, como não poderia deixar de ser, cada tendência tinha as suas. Explica Júlio Turra: "O pessoal da Caminhando era do sambão, do pagode, da cultura popular. Nós, da Liberdade e Luta, éramos mais roqueiros; o pessoal da Refazendo era mais tipo Milton Nascimento. Havia até um certo jeito de se vestir: o pessoal da Caminhando você reconhecia claramente - era o poncho e conga -; a Libelu já era o cara mais cabeludo, meio roqueiro..." Na noite da vigília das urnas, houve até mesmo duas polêmicas: que tipo de música se deveria tocar (rock ou samba?) e se poderia rolar bebida alcoólica ou não.

Nesse aspecto, no entanto, há divergências de apreciação. Para Josimar: "tínhamos um certo visual, um certo comportamento meio rebelde, meio pós-hippie, mas a não ser a questão da maconha, que tinha implicações de segurança, não discutíamos muito questões de comportamento." Mercadante tem outra lembrança: "A gente tinha um pé em Woodstock. Havia uma discussão cultural e comportamental na vanguarda social do movimento. Estas coisas não estavam nas cartas-programa porque o nível de consciência do conjunto dos estudantes não era o mesmo da vanguarda social." Julinho acentua: "Não havia muitos obstáculos; havia uma quase total falta de preconceitos. As questões comportamentais não eram tratadas nas cartas-programa, mas no entanto as transgressões à moral da época eram praticadas."

As divergências
Na USP da década de 70, três tendências políticas tinham maior destaque:

· Refazendo. Teve sua origem em militantes oriundos da Ação Popular que, tendo perdido contato com a organização quando das prisões de 1971, formam um grupo independente - o Grupão. Em 1976, voltam a retomar contato com a AP que, progressivamente, absorve seus principais quadros. A Refazendo tinha maior força na Geologia, Física, Geografia, Psicologia, Politécnica, Ciências Sociais e Economia. É vitoriosa nas duas primeiras eleições para o DCE.

· Liberdade e Luta. Era vinculada à Organização Socialista Internacionalista, formada em 1976 a partir da fusão de dois grupos trotskistas, a Organização Primeiro de Maio e a Organização Marxista Brasileira. Segundo Júlio Turra, ele e Markus Sokol quando discutiam a fusão, lembraram-se de uma frase de Spinoza que diz que "só há liberdade quando se luta pela liberdade". Aí, Julinho disse "Luta e liberdade pode ser o nome" e Sokol replicou: "Não, Liberdade e Luta soa melhor". A Libelu, como ficou conhecida, tinha maior expressão nos cursos de Arquitetura, Comunicações, Filosofia, Economia e Ciências Sociais. Segunda força do M.E. na USP, em 1978 a Liberdade e Luta ganha o DCE. Diz a lenda que em eleições em urna a Refazendo em geral ganhava, mas que nas assembléias normalmente dava Libelu.

· Caminhando. Vinculada ao PCdoB, era a terceira força na USP. Tinha maior presença na Medicina, na Politécnica e nas Ciências Sociais. Porém, em nível nacional, dada a maior organização do PCdoB, desponta como principal força, vencendo as primeiras eleições para a diretoria da UNE em 1979, em aliança com a Refazendo.

Além destas, e com menor expressão, havia ainda a Organizar a Luta, vinculada ao Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP), e a Alternativa, ligada à Política Operária (Polop). Somente em 1976 surge, ainda que com pequena expressão, a Convergência Socialista.

Quais eram afinal as divergências que explicavam a existência de tantas tendências? Nesse ponto, vinte anos depois, as impressões dos entrevistados quase reproduzem os mesmos argumentos da época.

Para Josimar, "havia dois extremos dentro da esquerda: o PC, que tinha um projeto político de alianças com a burguesia progressista e a Liberdade e Luta, que rejeitava toda aliança com qualquer setor da burguesia. No fundo, era isso que se refletia a todo momento. Na USP, a Refazendo era mais forte que o PC, que quase não existia, mas historicamente no Brasil nossa briga era com ele". Na mesma linha, Julinho, para quem a polarização Refazendo/Liberdade e Luta era mais ou menos como o Corinthians e Palmeiras da época, prossegue: "a gente era contra qualquer aliança política com o MDB que não fosse a frente única elementar. O PCdoB tinha uma política mais de frente para combater a ditadura com um programa tipo união dos patriotas. Já a Refazendo tinha uma postura crítica com relação ao MDB mas argumentava que era impossível fazer política fora dele. O próprio Geraldinho começou sua carreira política fora do M.E. como candidato da esquerda do MDB."

Já para o pessoal da Refazendo, o centro das divergências era outro. Mercadante argumenta que "o PCB vinha perdendo espaço na USP. Nós éramos uma alternativa ao reformismo, mas não aceitávamos o trotskismo pelo seu vanguardismo, pela sua total incapacidade de dialogar com a massa. Eles sempre atuavam na vanguarda social e com uma postura vanguardista." E Geraldinho complementa: "A Refazendo estava mais correta. A Libelu foi importante para empurrar o movimento quando a gente segurava um pouco, mas eles tinham uma análise errada. Eles achavam sempre que a ditadura estava para cair, que não tinha mais sustentação social. E a nossa análise era de que o que provavelmente ia acontecer era a abertura do Geisel, lenta, gradual e segura."

Por sua vez, Alon considera que "o centro das divergências era o caráter da luta política em curso. Tinha uma posição de lançar o movimento de massas num embate contra o regime e pelas liberdades democráticas, que era comum à Caminhando e à Liberdade e Luta. A Refazendo e a Organizar a Luta já achavam que ainda havia aspectos importantes de resistência e que as questões democráticas não deveriam ser levantadas de uma maneira mais aberta. A Refazendo, por exemplo, nunca chegou a defender a Constituinte... Por outro lado, na análise de conjuntura, a Liberdade e Luta achava que a ditadura estava prestes a cair e a Caminhando e a Refazendo achavam que ainda havia um longo período de acumulação de forças. Assim, do ponto de vista das bandeiras, a gente convergia com a Libelu, com exceção do "abaixo a ditadura", que achávamos que não devia ser colocado; mas do ponto de vista da condução do movimento, a gente era mais próximo da Refazendo."

Se não fosse pela discussão do "abaixo a ditadura", um leitor mais distraído poderia pensar que estávamos falando das divergências atuais dentro do PT, talvez até com os mesmos atores se repetindo... Mas, passados vinte anos, alguma síntese é possível. Assim, Mercadante considera que "o melhor da luta estudantil era o resultado final. Os companheiros da Caminhando tinham uma dimensão do nacional, do democrático e popular, que nós desprezávamos. Por outro lado, o vanguardismo do trotskismo empurrava o movimento para a frente, questionava a direção. E nós tínhamos uma visão correta do acúmulo de forças, da relação do movimento estudantil com o restante da sociedade. Quer dizer, a síntese era melhor que as partes". E Alon corrobora: "Cada tendência teve um papel fundamental. Sem o ímpeto e o voluntarismo da Liberdade e Luta nada teria acontecido. Sem a capacidade organizativa e o enraizamento na massa em alguns lugares que a Caminhando tinha também nada haveria. E também não aconteceria sem o caráter flexível da Refazendo, que era um instrumento para que as pessoas que não estavam a fim de militar num partido comunista ou trotskista pudessem participar do movimento. Foi uma combinação muito interessante porque cada um cumpriu seu papel."

Consensos
Passados vinte anos, é de uma maneira positiva e com certo tom de saudade que todos se referem ao período. Para Josimar, "foi decisiva a importância política do movimento estudantil. Ele não era vanguarda, mas era a ponta de um iceberg que terminou redundando no fim da ditadura". Julinho considera que "a primeira importância é que foi uma forja de quadros. Em segundo lugar, possibilitou uma renovação do pensamento da esquerda brasileira. E jogou um papel de catalisador do descontentamento que existia". Porém, ele pondera: "Mas o decisivo para cair a ditadura foram as greves do ABC". Para Mercadante, "foi o primeiro grande movimento social da luta democrática no Brasil. Os estudantes saíram na frente, ganharam a opinião pública para a luta democrática e foram uma referência fundamental para outros movimentos que vieram a seguir". Geraldinho comenta: "A gente queria fazer a revolução socialista, comunista, mas na verdade a gente jogou um papel importante na redemocratização do país." E Alon arremata: "Na ideologia oficial da direita, a democracia teria sido fruto da distensão do Geisel e da abertura do Figueiredo. Por outro lado, na ideologia oficial da esquerda criou-se um mito de que a democracia no Brasil começou a nascer com as greves operárias de 1978, no ABC. Mas, entre 1973 e 1979, aconteceu alguma coisa que permitiu ao próprio movimento operário mais oxigênio para poder respirar no final da década de 70. Nós achávamos que éramos uma organização de esquerda que estava preparando o caminho para a Revolução Brasileira. Na verdade, éramos lideranças políticas que estávamos mobilizando a massa para uma luta democrática. Realmente, foi um período incomparável em termos de experiência política, porque a gente discutia teoria, discutia política e fazia movimento de massa."


*Ricardo de Azevedo é editor de Teoria & Debate.

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