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Nacional: O país do pacote - Entrevista com José Dirceu

Teoria e Debate nº 36 - outubro/novembro/dezembro de 1997

publicado em 15/05/2006

por Ricardo Azevedo e Rose Spina

Como você vê a situação do país após o pacote econômico?
É evidente que o pacote econômico muda completamente a situação política, econômica e principalmente social do país.

O governo Fernando Henrique Cardoso e a coalizão conservadora deram seqüência a uma política iniciada por Collor - e que está predominando no mundo - de abertura comercial, privatizações e da chamada desregulamentação. O objetivo dessa política é expandir o capitalismo e superar o impasse que ele vive principalmente na Europa. Trata-se de desmontar o Estado de bem-estar social através da precarização das relações de trabalho, da privatização de empresas públicas etc. E isso na América Latina tem efeitos - sociais e com relação à soberania de cada país - devastadores, que não demoraram a se fazer sentir.

Os juros altos, com a abertura comercial e o câmbio valorizado, só poderiam levar o país a um estrangulamento externo. Câmbio fixo e juros altos não combinam com crescimento econômico. Isso, mais cedo ou mais tarde, desembocaria numa crise. A crise chegou, o governo dobrou os juros e baixou um pacote simples e direto. O que não quer dizer que irá funcionar...

Que fôlego esse pacote tem para amenizar a crise?
O problema é o fôlego da política de endividamento externo e de câmbio valorizado. O governo agora está numa situação de imobilismo. Ele não tem instrumentos de política econômica fora esse ajuste fiscal, que significa perda de renda para as classes médias, os trabalhadores e prejuízo para a pequena e média empresas. Ele protegeu o setor financeiro, mais uma vez, porque era o setor que poderia levar a um processo de descontrole total da economia do país. Mas o pacote é recessivo e aumentará o desemprego. E é evidente que o governo, que já não vinha fazendo quase nada na área social, agora fará menos.

Com isso cria-se uma nova situação política, porque a "infalibilidade" do governo, a legitimidade de sua política econômica e do próprio real não existem mais, e o presidente perde o grande argumento de que era ele ou o caos, ele ou a crise. A crise está aí.

Isso também vai produzir uma série de dissensões no campo da coalizão governamental, ainda que a tendência principal ainda seja a de todos - inclusive Maluf e o PMDB - apoiarem FHC. Mas pode acontecer de o PMDB lançar candidatura própria nesse novo quadro.

Como você avalia os reflexos das medidas econômicas no prestígio de FHC?
Agora a imagem é de um governo que adotou um pacote e que estava mentindo para o país. Uma parcela grande da sociedade começa a se dar conta de que as bases do real eram mesmo artificiais e de que não há realmente garantia da estabilidade da moeda.

E as oposições diante desse novo quadro?
Isso tudo não quer dizer que automaticamente a esquerda terá voto ou que a maioria da sociedade vai deixar de votar no governo. A oposição tem de apresentar um programa, convencer a sociedade desse programa, mostrar que terá condições de governar, estar unida e ter um candidato que possa ser aceito. Enfim, é um processo mais complexo e pode perfeitamente ocorrer um crescimento das bancadas e dos governos estaduais de oposição, e mesmo sua ida ao segundo turno, mas para ganhar ainda há um longo caminho a percorrer.

Confirma-se mais uma vez a necessidade de unidade das oposições, ainda que na prática venha prevalecendo a tese de duas ou três candidaturas desse campo a partir do lançamento de Ciro Gomes pelo PPS.

Como vêm se posicionando o PSB e PCdoB com relação à candidatura de esquerda?
Esses dois partidos tendem a esperar o desenvolvimento da situação política do país, principalmente os resultados da convenção do PMDB. Creio que não tomarão nenhuma decisão antes dos prazos legais para as convenções. Eles falam em março, mas acho que pode ser lá para junho. A não ser que o governo consiga que o PMDB faça sua convenção em janeiro e o partido decida pelo apoio ao governo.

O PSB e o PCdoB estão na expectativa de uma candidatura do PMDB. Afirmam que a candidatura do Lula é de esquerda, que ambos apoiarão, mas preferem ampliar a aliança para a centro-esquerda e há setores nesses partidos que defendem a candidatura de Ciro Gomes. Então, na verdade, hoje a Frente das Oposições está em suspenso. Existe um protocolo que afirma a decisão dos quatro partidos de trabalharem uma candidatura única, existe um documento comum de teses para elaboração da plataforma de governo, mas não houve avanço maior.

Hoje, o que temos é o apoio decidido do PDT ao Lula, a proposta de Leonel Brizola ser seu vice e o avanço de uma aliança entre o PT e o PDT no Rio.

Quais são as perspectivas eleitorais dos partidos de esquerda nos estados?
Na maioria dos estados está caminhando bem a política de alianças e o lançamento de candidaturas para governador: no Pará, em Sergipe, na Bahia, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Mato Grosso do Sul, no Distrito Federal. Temos condições de vencer as eleições em muitos estados, ou no mínimo de repetir o resultado de 94, quando PT, PDT e PSB venceram em cinco estados. Na verdade, o PDT venceu também no Paraná, mas nós nunca consideramos o Jaime Lerner de esquerda ou centro-esquerda.

E no Rio de Janeiro?
No Rio, o PT avança para fazer uma aliança com o PDT, pois mais de dois terços do partido a apóia e a probabilidade do PT aceitar que o PDT encabece a chapa é bastante plausível, o que garantiria a presença no segundo turno e daria competitividade à mesma. Resta resolver as divergências programáticas entre os dois partidos e também superar problemas acumulados ao longo de quatorze anos, em que PT e PDT se colocaram em campos opostos no estado. Evidentemente, esses problemas não são simples, mas podem ser equacionados. A senadora Benedita da Silva e Antony Garotinho têm empenho nessa aliança. Essa unidade no Rio também significa unidade no Rio Grande do Sul. Disputamos ainda em condições de vencer no Acre. Em Alagoas, a aliança com o PSB deve ocorrer, com Ronaldo Lessa candidato a governador e a deputada petista Heloisa Helena ao Senado.

Existe a possibilidade de atrair outros setores para uma aliança?
Devemos explorar todas as contradições desde que os setores a serem atraídos sejam de oposição a Fernando Henrique e ao neoliberalismo. Devemos disputar inclusive a base eleitoral do PPB e do PMDB, caso esses partidos venham a apoiar FHC. Temos que abrir a campanha eleitoral para o pequeno e médio empresários e para as classes médias. Temos que apresentar um programa de governo que corresponda ao interesse desses setores, que estão sendo desestruturados com a política do governo.

Por outro lado, as vitórias dos socialistas, comunistas e verdes na França; dos trabalhistas na Inglaterra; do PRD na Cidade do México, da aliança das esquerdas com o centro na Argentina têm uma influência nas classes médias, nos setores formadores de opinião pública e na esquerda. Será uma eleição difícil, em que as regras eleitorais são contra a oposição. O governo tem 500 milhões de reais para gastar em publicidade e existe uma grande coalizão político-empresarial governista na mídia. Ele é um adversário dificílimo mas não devemos pensar que é impossível derrotá-lo. Temos que trabalhar com a idéia de que é possível enfrentá-lo, dependendo da nossa capacidade de fazer política e da nossa ação na sociedade. Até porque em 1997 conseguimos fazer mobilizações que mudaram de qualidade, se comparadas às de 1995 e 1996, e o governo tem muita dificuldade no seu campo para montar os palanques regionais e coesionar os interesses econômicos em torno do seu projeto.

Ciro Gomes poderia ser o candidato para unificar a oposição?
A alternativa não pode ser Ciro Gomes por uma série de razões: em primeiro lugar, esta candidatura vem com um caráter antiPT; em segundo, vem pelas mãos do PPS de Roberto Freire; em terceiro, não é nem dissidente do governo, pois critica o Fernando Henrique mas apóia o Tasso Jereissati e o PSDB do Ceará, a quem os outros partidos de esquerda fazem oposição; em quarto, não há nenhuma garantia de que tenha viabilidade eleitoral; em quinto, não há nenhuma garantia de que terá um programa como o nosso; em sexto, o próprio PSB teve dificuldade para filiá-lo. Apresentando-se pelo PPS, sua candidatura ganha uma característica: é só para se contrapor à do Lula e ao PT. Nós, que temos um possível candidato com 20 milhões de votos, que somos o maior partido, não estamos colocando o nome do Lula de maneira incondicional. Como poderíamos aceitar o Ciro Gomes, fazendo uma campanha - e existe essa possibilidade - contra o PT e o PCdoB? No fundo, é a tentativa de se fazer a transição por cima, como foram outras no Brasil. Daqui a pouco vai ser a alternativa das elites para substituir o Fernando Henrique se acharem necessário. Quem tem a ilusão de que o PT tem medo de sair sozinho não conhece o PT. Nós queremos alianças mais amplas, mas também não hesitaremos em sair sozinhos, se for o caso.

Como você vê as mudanças estruturais por que passa a sociedade brasileira?
Existem novos problemas que temos que enfrentar nos próximos 10 anos, principalmente no que se refere às rápidas mudanças das classes sociais. Isso vale para a composição dos grupos que detêm o controle da economia, com a reformatação das classes burguesas e o surgimento de novas elites nos meios de comunicação e novos grupos econômicos na base industrial. Mas vale também na base da sociedade, onde diminui a classe operária industrial e aumentam os setores informal/autônomo e terciário. E há o problema da juventude. A nova geração está surgindo com um grau de informação maior do que a passada, apesar de não ser engajada do ponto de vista político-partidário. É uma leitura errada porém pensar que esses setores caminham para a despolitização. Eles terão uma forte presença na sociedade como cidadãos, não necessariamente como agentes de sindicatos ou partidos. Talvez emerjam com fortes reivindicações por democracia, acesso à cultura, ao bem-estar, em defesa do consumidor. Creio que as questões do desemprego, da violência e da juventude vão ganhar um peso extraordinário no Brasil. E o PT é um partido que ainda tem um grande prestígio junto aos jovens.

Recentemente, três importantes lideranças saíram do partido (Luíza Erundina, Vitor Buaiz e Darci Accorsi). Qual o impacto de suas saídas sobre o PT?
As três foram perdas importantes do ponto de vista político e social, ainda que do ponto de vista orgânico essa perda seja relativa. Há dois lados a serem analisados: de um lado, parte de nossas divergências com essas lideranças pode ser debitada ao sectarismo de setores do PT; de outro, parte pode ser debitada à sua incapacidade de viver com a pluralidade. De certa maneira, existem setores no PT que são capazes de conviver com qualquer tipo de divergência ou rompimento nas linhas programáticas do partido, desde que seja por parte de setores mais à esquerda, mas não aceitam em hipótese alguma que exista qualquer tipo de divergência à direita. Ou seja, trabalham com dois pesos e duas medidas: o Vítor Buaiz tem que ser expulso mas a Convergência Socialista poderia estar no PT até hoje e a tendência O Trabalho pode fazer uma política em Brasília totalmente contrária à orientação partidária!

Mas existem divergências com os três no que diz respeito ao papel das lideranças e à sua relação com a direção e com as decisões partidárias. Eles tendiam a querer um tipo de partido no qual poderiam tomar decisões sem ter que se submeter ao programa, à avaliação crítica, ao controle político, o que é totalmente antidemocrático. Tanto a Erundina como o Darci Accorsi têm muita dificuldade de aceitar a crítica, o contraditório, principalmente se for público. Se eu que sou presidente do partido e quase sempre tive maioria, tenho que disputar prévia para ser candidato, por que a Luiza Erundina não pode? Houve, no caso do Darci Accorsi e da Luiza Erundina também uma ruptura com o projeto do PT. Ela deixou claro que não acredita mais nesse projeto e foi para o PSB. É bom lembrar que esse processo já vinha desde o governo Itamar. Em lugar algum se aceita que uma liderança vá para um governo ao qual se é oposição sem que se desfilie ou seja expulsa. Tanto o partido é generoso, que ela voltou para o PT e se reintegrou, porque só havia sido suspensa. Depois disso foi candidata a prefeita de São Paulo e participou da Executiva Nacional. Agora ela diz que não tinha nem voz nem liberdade no PT! Isso é inaceitável. No caso do Darci Accorsi, independente do sectarismo e das injustiças que sofreu, acho que ele não acredita mais no projeto PT. Já no caso do Vitor, apesar de ter tido uma oposição interna mais dura, acredito que sua decisão foi mais difícil.

Como você avalia o resultado do 11º Encontro Nacional do PT?
Creio que o encontro conseguiu deixar transparentes as divergências e as visões políticas que existem no PT. Predominou a orientação de abrir o partido, tanto para a sociedade como para uma política de alianças. Também conseguimos aprovar a realização de um encontro extraordinário para mudar o estatuto e o regimento e do 2º Congresso para fazermos um debate político programático. Mas é verdade que não conseguimos uma maioria correspondente à vitória política que tivemos.

Como no próximo ano vamos ter eleições, o PT se unificará movido pelo sentimento de autopreservação do partido, dos mandatos, de sua base social. Mas acredito que em 99 o partido vai ter que fazer um debate político-programático decisivo para a sua história. Se o postergarmos, estaremos condenando o PT a se fracionar em disputas regionais, de lideranças e não por divergências políticas. Quando um partido se fraciona por divergências políticas, fica claro quais são os diversos projetos e todos ganham, mas quando se transforma num condomínio de interesses pessoais, de mandatos ou tendências, todos perdem.

Você diria que hoje não há uma hegemonia política no partido?
Diria que existe sim, até porque a tradição é de hegemonia política das forças que compõem a atual maioria, que só a perderam durante um mandato e durante o qual não se conseguiu governar o partido. Existe a hegemonia da maioria e de suas idéias, ainda que a governabilidade do PT passe por compromissos e pactos. Porém, o que passa para a sociedade é a idéia de que o PT está sendo dirigido de forma pactuada. Se isso será positivo ou não ainda vamos conferir e depende muito de como vamos dirigir o partido nesses dois anos e do resultado do processo eleitoral.

Existe uma base política por trás dessas divergências?
Existem avaliações distintas sobre o período histórico que estamos vivendo, o papel do PT, o papel da institucionalidade, a participação em eleições e no Executivo, a organização do partido, a definição de sua base social prioritária e qual a sua perspectiva a curto prazo, para os próximos cinco anos. Esse debate não foi feito de maneira profunda. Foi feita a discussão sobre tática eleitoral e o balanço do período que vivemos. Nessa disputa, a maioria dos petistas era favorável ao que estávamos apresentando e também à visão que temos do partido e da necessidade de sua abertura para a sociedade. Mas dentro do PT as forças que se opõem a isso ainda precisam ser decantadas. Acredito que há muita retórica, muita luta interna, bem mais do que propriamente uma resistência à nossa visão. Até porque é essa visão que permite ao PT manter o seu caráter de partido socialista, de luta social, com base popular e com uma presença política no país. Qualquer visão ultra-institucionalista ou, ao contrário, avessa ao parlamento, levará o partido ou para a sua cooptação ou para o gueto. A maioria não representa a conciliação de centro, mas sim a única visão contemporânea para o PT nesse momento.

O partido tem clareza de que sem luta social o Brasil não muda e de que se ele não for um partido popular não terá força na sociedade, mas também tem consciência de é necessário estar inserido na institucionalidade e ser alternativa de governo. Isso porque o Brasil e o mundo mudaram, e é preciso mudar sem mudar de lado. Esta é a síntese do desafio que o partido tem pela frente.


*Ricardo de Azevedo é editor de TD. Rose Spina é subeditora de TD. Tags:  




 

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